sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O GUARDIÃO DA LENDA



Capítulo I – A lenda de cada um.

O quarto empoeirado fazia contraste com o frescor das mangueiras. Nesta época do ano coloridas com seus frutos amarelos. Teodoro abriu a janela. O sol trazia vigor para um ambiente em que a tristeza recolhia-se em lembranças ancestrais. Eu não sei quanto tempo ficou fechado. Nenhum dedo humano veio para pousar digitais sobre tantos livros e documentos ali depositados. Uma década? Um século? Teodoro viu pela janela que o jardim e toda região em volta estavam bem cuidados. Estranho contraste. Vou deixar a porta aberta. Facilita a circulação do ar. Teodoro agora visitava outros territórios. Os cômodos fechados retinham histórias de não sei quanto tempo. Uma estranha sensação do passado de um tempo sem calendário. A antiga biblioteca o que guardava? As traças parecem ter capitulado à robustez daquelas capas de couro. De sua precária existência de inseto não havia qualquer registro. Agora todas as janelas estavam abertas. As portas abertas. Uma coluna de vento ganhou o espaço das brisas fazendo revoar o papel velho sobre a mesa. Quanto tempo estes papéis aguardaram algum uso? Uma caneta que fosse para lembretes. Datas de aniversários. Recomendações. Contas vencidas de uma data que ninguém sabia. Agora o vento rouba-lhes qualquer função mais nobre. Teodoro percebeu que a mobília da sala estava arrumada. Seu último ocupante assim deixou. Não era nem mesmo uma casa antiga. Quanto tempo fechada? Indagação que fazia de sua inutilidade os sinais de uma longa ausência. Talvez nem tanto. Um ano, meses, poucos dias? Alguns fantasmas de certo apego familiar gostavam deste aconchego. Mas estes também se foram. Teodoro tinha entrado na casa pela área de serviço. A sala de visitas era o derradeiro cômodo. Ele conservou a solenidade de todas as visitas que ali pousaram. Chamava atenção a grande quantidade de quadros que repousavam na superfície neutra das paredes. Uma combinação disforme que aceitava estilos de muitas eras. No meio da parede três grandes retratos geometricamente dispostos. À direita meus avós paternos e seus filhos. Conseguia reconhecer cada um deles. À esquerda meus avós maternos e seus filhos. Sem convivência as faces não se apresentavam na identidade dos meus tios. Gostaria de ter conhecido cada um deles. Minha mãe relata aventuras que fariam o encanto das melhores obras de teatro. No centro um retrato com meus pais e todos os meus irmãos. Teodoro se deteve neste quadro com inesperada curiosidade. Havia uma promessa de mistério. Tinha uma clara lembrança do dia que todos os irmãos dispostos por idade, meus pais ao centro, aguardavam o registro desta imagem para história de cada um. Eu me detinha no rosto de todos eles. Novos demais para abrigar feitos heroicos. Éramos nove irmãos. No canto direito, sentado em um banquinho, um dos meninos guardava minha identificação. Quem era? Fiz uma chamada visual e ali somavam dez. Eu tenho certeza que na foto original não havia aquele menino e o seu banquinho. Era um registro de família. Nestes assuntos meu pai tinha rigor. Nenhum parente, nenhum vizinho, nenhum estranho se acomodaria neste banquete. No entanto estava ali. Olhei seus traços, o feitio dos olhos e o traçado do nariz. O cabelo louro, liso penteava-se para o lado, deixando uma risca na lateral da cabeça. Era de moda. Usava uma camisa xadrez e um tipo de jardineira. Uma bermuda acomodada por um tipo de suspensório, que revestia o peito. Não era o estilo de roupa dos meus irmãos. Quem era aquele visitante? Como ele foi parar em nosso retrato de família? Teodoro procurou no fundo dos olhos alguma familiaridade. Em um instante aqueles olhos ganharam vida. Foi um destes momentos de inquietação em que temos a sensação de uma ruptura do tempo. Seus olhos agora me pareciam estranhamente familiar. Estranhamente ameaçador. Não. Não era sua infância que ameaçava. Nem seu vestuário. Muito menos seu corte de cabelo. Era sua presença. Algo que afrontava meu senso de realidade. Teodoro fez um movimento em direção ao quadro. Ia levá-lo. Alguns dos meus irmãos poderiam elucidar. Quem sabe meus pais. Meus avós. Invocarei meus antepassados em seus préstimos geracionais. Não tinha um nome para ele. Assim chamei-o de Remiau. Um apelido que vinha da fantasia. Meu irmão mais novo conhecia esta história. Talvez conhecesse o mistério de sua presença. Talvez conhecesse mesmo outros mistérios. Como do dia em que foi abduzido e deixado sem amparo no topo da serra de Santa Helena. Eu sei que meus avós são também depositários de mistérios. Pude ouvir de cada um os seus relatos. Nenhuma outra testemunha além de minha memória. Nenhum diário, nenhuma carta conteria este registro. Já tinha anoitecido quando Teodoro se deu conta do tempo. Lá fora uma densa bruma era barreira para qualquer viagem. Os faróis do carro nada podiam contra estas paredes da noite. Teodoro avaliou como mais prudente pernoitar ali mesmo. Os préstimos de qualquer das camas requisitavam rápida faxina. Nem foi preciso repetir. A sucessão de espirros denunciou um celeiro de ácaros. Menos de uma hora depois a cama era convite perfeito para o necessário repouso. Teodoro já tinha decidido que passaria os próximos dias na antiga casa de campo, próximo a Sete Lagoas. O clima, a paisagem, a topografia em Minas Gerais possui uma enorme diversidade. Neste ponto do estado as temperaturas são um pouco mais altas do que as do sul. O ar seco e uma vegetação retorcida lembra que estamos na boca do cerrado. Mas naquele dia, uma manhã de setembro, Teodoro foi brindado com uma orquestra que combinava sons de pássaros, latido de cães e o ruído manso da folhagem de uma mangueira próxima da casa. Lembrei-me do dia que da janela da cozinha do apartamento dos pais de Júlia ficamos olhando o bailado das folhas de uma árvore. Um parque do outro lado da rua. Era uma benção esta visão. Também era primavera. De sorte que o colorido de flores de campo decorava o bosque com a predominância do verde de suas folhas. Ficamos uns cinco minutos apenas encantados com a harmonia daquele bailado. O som de passos requisitou a atenção de Teodoro, que observou a nova presença. Ele tinha uma estatura franzina. O sol de todos os dias já havia colorido seu tronco além de um simples bronzeado. Valdir era também um homem do cerrado. Se fosse uma árvore seria um arbusto. Baixo, mas muito resistente. Por um estranho motivo sua mulher não gostava do seu nome. Chamava-o pelo sobrenome de família, Teixeira.
- Estou surpreso depois de tanto tempo. O senhor não mudou nada. Vai voltar?
Eu não sabia. E não era tanto tempo. Talvez um ano. Agora eu não tinha ideia para onde iríamos. Júlia provavelmente faria algumas mudanças. Uma melhoria aqui e ali. E seria um lugar agradável para morarmos. Isto também teria ainda que resolver. Gosto de imaginar que toda a casa ganharia mais frescor se estivesse cercada com um belo gramado. Teixeira mantinha os dez mil metros de terreno sempre muito limpo. Seu particular cuidado com o jardim da casa causava ciúmes em dona Marilene, sua mulher.
- Seu Teodoro, todo dia eu peço pro Teixeira plantar umas margaridas e umas flores do campo na frente de casa. Cadê? Faz nada.
Deixei ela desabafar o quanto queria. Mas o terreno era muito pedregoso. Talvez por isto tinha aquele ar seco. Até para caminhar entre as árvores era difícil. Era só tropicão. Ai batia um desânimo daqueles. Teixeira se desculpou pela poeira nos cômodos.
- Todo semana dou uma limpeza, senão tava muito pior.
Teixeira pediu desculpas quando me viu olhando atento para o quadro de família.
- Um dia ele caiu assim sem menos, seu Teodoro. Tava passando a vassoura na sala e ouvi o barulho. Nem dei conta de pronto. Depois vi o buraco no meio dos outros quadros. Foi quando vi esse do meio no chão. Juro por minha mãe que nem encostei nele. Deve ser o prego. Só aí percebi que o vidro tinha quebrado. Mas prontinho pendurei de novo. Vi o senhor olhando. Depois desconta o vidro do meu salário.
- Não tem problema Teixeira. Nem lembrava que tinha vidro.
- O senhor acredita em alma seu Teodoro?
- Que papo é este Teixeira? Alma do outro mundo. O que tem as almas do outro mundo?
- Nada não. Já tem tempo. Eu pensei que o senhor tinha voltado. Pra mais de uns par de meses. Ouvi os cachorros do seu vizinho latindo e vim correndo. Aí já estranhei quando não vi seu carro. Nenhum carro. A luz da sala tava acessa. E eu vi direitinho um menino correndo. Vai desculpar seu Teodoro. Foi um arrepio só. Pensei que ia desmaiar. Voltei correndo e contei pra mulher. Só no dia seguinte, dia alto, tive coragem de voltar lá. Guardei bem o dia porque foi quando vi o quadro que tinha caído a primeira vez. Mas aí o vidro não quebrou. Quebrou depois. Quando eu varria a sala. A lâmpada ainda acessa eu tratei de apagar. Domingo a mulher mandou celebrar missa pras almas penadas.
Teixeira não era homem de estranhamentos. Sua história foi o bastante para redobrar minha curiosidade sobre o menino da fotografia. Na hora me lembrei do professor Artur Kiev. Seu acervo era impressionante. Mas isto já tinha mais de trinta anos. Se ele estivesse vivo estaria muito velhinho. Suas pesquisas sobre episódios paranormais eram cuidadosas. O professor Kiev foi um dos mais criteriosos que já conheci. Era um território em que o mistério confunde-se fácil com toda sorte de invencionice. Logo Teixeira chamou minha atenção para urgência de outras tarefas. Falou de uma praga que atacou os cajueiros. As folhas escureciam e ficavam retorcidas. Os frutos pouco cresciam e logo murchavam. Queria minha autorização para passar um pesticida. Minha posição ainda era a mesma. Ia pesquisar algum remédio para curar os cajueiros. Ali bem perto as abelhas nativas faziam morada. O antigo meliponário tinha merecido a atenção do Teixeira.
- Colhi bem uns cinco litros todos os anos, seu Teodoro. Tá lá em casa, nas garrafas. Do mesmo jeito que o senhor recomendou. Elas ficam tombadas que nem vinho.
A explicação do Teixeira foi bastante para reforçar minha proibição de usar os pesticidas.
- Elas vão na florada do cajueiro. Se colocarmos veneno elas vão morrer. É por isto que deve ter algum espírito tomando conta das abelhinhas.
Teixeira não gostou da minha brincadeira e amuou.
-Fica tranquilo homem, isto é uma brincadeira de nada.
Pelo sim pelo não mudamos para o assunto da cerca. Teixeira comentou que precisava reformar a cerca no fundo da chácara. Os postes de eucalipto estavam apodrecendo e a cerca bambeando. Com esta prosa deixamos de lado o assunto que agora ficava em silêncio em meu próprio espírito. O que aconteceu com o retrato de minha família? Tive o cuidado de recolher dois velhos livros de minha antiga biblioteca. Eram apontamentos do meu avô sobre episódios do final do século XIX. Contava histórias datadas de 1887. Ali, abandonado à minha imaginação viajei neste passado. Em meu DNA estavam impressas indagações do mistério. Lembrei-me quando meu avô contou-me de uma sociedade secreta que ele e alguns amigos tinham criado. Era moda vinda da França. O estatuto era rigoroso. A traição era punida com a morte. Quando um dos confrades decidiu abandonar o grupo a sociedade se reuniu para deliberar. Meu avô conta do forte constrangimento. O estatuto tinha que ser cumprido. Ninguém se habilitou para tão nefasta missão. Era um amigo de muito tempo que ia ser executado. Um dos membros era um espanhol de sangue quente.
- Não precisa fazer sorteio nenhum. Eu mato o traidor.
O pesado silêncio selou a gravidade do momento. Não houve execução. Poucos dias depois a sociedade estava desfeita. Meu avô terminou seu relato. No seu livro de memórias não havia qualquer referência à “Mão dos Justos”. Em minha curiosidade indaguei meu avô do propósito desta sociedade. Havia uma inspiração na maçonaria. O grupo tinha também uma forte influência de crenças esotéricas e espíritas. Um jornal da cidade fez uma denúncia. Seitas satânicas estavam se organizando na cidade. Um panfleto anônimo cuidou de desmentir o jornal. No final a assinatura: “Fraternidade Mãos dos Justos”. Depois que a sociedade foi desfeita alguns dos integrantes voltaram a se reunir, agora com o objetivo de pesquisar fenômenos paranormais. Meu avô mantinha um segredo de confessionário sobre acontecimentos anômalos ocorridos em suas reuniões. Teodoro tinha sua curiosidade ainda mais aguçada. Tinha ligação com a Opus Dei? Com os Illuminati? Com os Templários? Meu avô apenas me olhava com uma severidade que não comportava contestações. Teodoro se deu conta de seus compromissos. Tinha combinado com Júlia retornar antes do almoço. Já passava das onze. Para Teodoro todas estas dúvidas apenas selavam um compromisso com uma investigação mais minuciosa. O cotidiano cobrava praticidade. Pedi dona Marilene que caprichasse na limpeza. Queria passar o fim de semana na chácara com Júlia. Nossos filhos e netos viriam de São Paulo. Há muito planejamos esta confraternização. Seria um verdadeiro reencontro com nossa própria infância. Nossos netos estavam crescendo e quase nada sabiam do encantamento do cerrado. A lembrança dos netos acendeu outras lembranças. Teodoro logo faria setenta anos. Fazer planos para o futuro era algo que trazia algum desconforto. Mas havia um forte desejo de morar em uma casa de praia. E este era um projeto que encantava igualmente Júlia. Viajando em seus pensamentos Teodoro não se deu conta do trajeto de sua chácara até a casa de sua mãe. Chegou junto com um agente dos correios. Foi uma enorme surpresa. A correspondência tinha meu nome como destinatário. A surpresa cresceu como uma avalanche. 
A remetente assinava Helen Lefebvre. A localização, Chartres – France. E em baixo um carimbo identificando o Institut Monroe France – Exploration de la Conscience. Teodoro segurou a correspondência com a expectativa de um menino em véspera de natal. O coração pulsava na garganta. Depois de tanto tempo. Difícil acreditar. Em um lampejo Teodoro voltou no tempo. Mais de vinte anos. Podia ser. Viu mentalmente o rosto de Juracy e toda sua fantástica história. Lembrou-se do dia que tudo aconteceu. Agora a própria Helen envia uma correspondência. Teodoro entrou na casa de sua mãe com o envelope ainda lacrado. Sentou-se no sofá da sala. Com uma urgência de muitos anos rasgou o envelope pela lateral. Do seu interior retirou uma espécie de manual. O principal destaque da capa eram as palavras Robert Allan Monroe – “Journeys Out of the Body”. 
Teodoro lembrou-se que este era o nome em inglês do livro em que Monroe relata suas experiências de projeção da consciência. Tinha muitos nomes. Viagem astral, experiência fora do corpo e outros parecidos. Era muito estranho que depois de tantos anos esta correspondência tenha chegado ao endereço de minha mãe aqui em Sete Lagoas. O manual não continha nada de novo além do que eu já tinha lido no livro. Nada de novo. Mas ali estava. Preciso descobrir o que pretende Helen Lefebvre. Se ela estiver viva estará hoje com pouco mais de noventa anos. Prefiro acreditar que foi uma correspondência que ficou perdida. E por alguma razão o serviço de correio rastreou meu último endereço. Teodoro sabia que a hipótese era pouco verossímil. E sabia que não descansaria enquanto não tivesse uma explicação minimamente razoável. Afinal esta tem sido minha jornada desde sempre. E é possível que não haja nenhum outro motivo além de ser apenas o caminho que tenho trilhado. Suas pegadas estavam cravadas em cada instante de sua vida. Teodoro sabia disto com a força de uma obsessão. Esta era parte de sua lenda pessoal.

(Capítulo 1 do livro O Guardião da Lenda de Frederico Ozanam Drummond)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

A Energia dos Mitos Fundadores: nossa busca de uma destinação teleológica para a humanidade rumo ao hiper-coletivo.

Meu trabalho de conclusão do curso de Filosofia foi intitulado: "Mitos Fundadores, Crises e Pespectivas do Partido dos Trabalhadores". A professora Marilena Chaui desenvolve o conceito dos "mitos fundadores" na história do Brasil. Recupero uma referência da professora: (...) “À maneira de todo 'fundatio' este mito impõe um vínculo interno com o passado como origem, isto é, com um passado que não cessa nunca, que se conserva perenemente presente e, por isto mesmo, não permite o trabalho da diferença temporal e da compreensão do presente enquanto tal"(...). 


Para mim foi um achado esta contribuição de Chauí. Depois encontrei em diversos outros autores o papel dos Mitos, com uma força muito maior do que eu poderia originalmente conceber: bons exemplos estão no estruturalismo, que nos fala de um Inconsciente Estrutural e dos conceitos de arquétipo trabalhado por Jung. Porque fui buscar estas fontes? Sempre me perguntei sobre a origem da energia mobilizadora de alguns conceitos, como por exemplo o de "libertação". Eu tive vários companheiros que morreram sob tortura, colocando o ideal de liberdade acima da própria vida. Havia uma motivação que eu chamaria de "não-racional" e uma convicção de que no final a Verdade venceria. Esta é no fundo a visão do Reino, proclamada pelas religiões abraamicas, que está presente no judaismo (Marx era judeu) e no cristianismo e, neste sentido, é uma visão teleológica. O Bem é para o onde caminha inexoravelmente a história. Se a história possui uma destinação teleológica qual o sentido de nossas escolhas e o papel da nossa liberdade? Somos de alguma forma prisioneiros de um final que já está escrito? Esta é a dimensão ontológica do Ser que estudamos?
É possível que encontremos em Sartre um esforço de elaborar esta reflexão. Senão vejamos.
O ano de 1977 foi particularmente simbólico para muitos de minha geração. A grande maioria dos partidos de esquerda, que exerciam alguma ação contra o regime militar no Brasil, já estava dizimada. Um sentimento de desesperança em relação ao nosso sonho socialista teimava em ganhar proporções. Foi neste ambiente que proclamei, no poema acima, como uma condenação continuar buscando a liberdade e a vida. Carlos Takaoka, um artista plástico, que ganhara há pouco tempo a liberdade, depois de ficar cinco anos na prisão, como prisioneiro político, leu meu poema e retrucou-me com outro poema, em que ele recusava a vida como uma condenação, mas como um ato de liberdade. Sem sabermos estávamos no coração dos temas mais caros ao filósofo Jean Paul Sartre. Mesmo porque a visão que tínhamos dele era de um anarquista, que com sua pregação criava vacilações nas opções políticas do povo francês. Passados 30 anos vejo-me face a face com o Anjo Vingador. Se a história não possui um sentido teleológico qual a nossa bússola? E se Deus não nos presenteará com a Terra onde jorra o Leite e o Mel, resgatando nossos pecados da vacilação pequena burguesa, o que será de nós? Enfim que espécie de prisão é a vida, onde construímos nossos projetos de liberdade e prometemos aos filhos certos atos de bravura? Tomamos na prateleira o livro Sentimentos do Mundo, do poeta Carlos Drummond e defrontamos com um trecho do poema Elegia 1938 (1938?):


“(...) Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
E sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.(...)”
E no final o poeta proclama:
“(...) Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.(...)”

Nem a deliciosa alienação do sono, nem o conforto da impotência nos resgatam, nos levando a aceitar a “injusta distribuição” no sossego de não fazer qualquer escolha.

Sartre fazendo a defesa de sua ética existencialista (e sua dimensão profundamente humanista) nos lembra: - “O que as pessoas, obscuramente, sentem, e que as atemoriza, é que o covarde que nós lhe apresentamos é o culpado por sua covardia. O que as pessoas querem é que nasçamos covardes ou heróis.” Porque afinal se em minha covardia ou em minha alienação não posso sozinho dinamitar Manhattan, porque me responsabilizam pela guerra, pela chuva e o desemprego? “O que o existencialista afirma é que o covarde se faz covarde, que o herói se faz herói” – diz Sartre. E que dinamitar Manhattan ou não é um escolha inteiramente minha, pela qual responderei. E que se este ato expressar uma atitude voluntariosa ou conseqüente será uma conseqüência de minha exclusiva liberdade.

Somos então prisioneiros da liberdade? Não é isto que nos afirma Sartre, de vez que ser prisioneiro já é um condicionante. Parece existir aí um aparente paradoxo e é sobre este ponto que vou dirigir minhas reflexões.

Somos condenados à liberdade? Farei algumas reflexões:

Sartre é uma figura emblemática e em minha opinião o mais importante filósofo do século XX. Manteve uma vida ativa como professor, escritor, crítico social, ativista político, deixando um legado na filosofia que ainda não foi inteiramente assimilado: o compromisso humanista existencial com a liberdade. Sartre fez esta trajetória sem cair em qualquer forma de niilismo e/ou alienação. Ao contrário: a existência humana é a única ancoragem para sua ética, construída como um ato fundamental de escolha, dentro da liberdade. Eu gosto da metáfora de Adão e Eva expulsos do paraíso. O que é o paraíso? Um estado de não escolha, de total indiferenciação. A comerem o fruto da Árvore do Bem e do Mal eles ganham consciência (perdem a ingenuidade) e entram em um estado que precisam fazer escolhas. Eles são condenados a escolhas. Qualquer que seja a escolha possível, com todos os limites da alienação, dos condicionamentos culturais e outros limites, estará sempre condenado a uma escolha. E este é um ato solitário, ainda que se dê no espaço social e na história. Porque escolho não fazer apropriações individuais da produção social? Nada me obriga a isto. Porque escolho que a vida deve ser defendida como valor supremo? Instinto de conservação da espécie? Pode ser. Mas porque este mesmo instinto não me impede de escolher dizimar meus iguais com armas de destruição em massa, com políticas de exclusão social, com atos de colonialismo e dominação. Que instinto é este? E não podemos fugir do seu exameE se Deus de fato não existir? Será esta de fato a pergunta relevante? Vejo dois conceitos caminharem muito próximo: o de materialismo e ateísmo. Qual a relevância desta proposta? Excluindo as atitudes mais neuróticas, que transformam qualquer visão em fundamentalismo, a questão central deveria ser outra; sendo mais preciso - deveria caminhar na direção de nos olharmos como humanos. Quais nossas singularidades? Sabemos que somos herdeiros do Big Ban. Isto não é pouco. Esta ancestralidade me liga à história do próprio universo. Sabemos nossa condição de seres relacionais. Somos gregários. E principalmente, sabemos que sabemos todas estas coisas. Mas somos seres que possuem a mesma trajetória dos entes vivos: somos efêmeros. Somos realmente efêmeros? Se o único espaço em que posso realizar de minha experiência de vida é o agora, cada agora contém uma eternidade. A morte soe acontecer. "Todavia, toda vida é indagação do achado" (diz Drummond). Indagação do depois de agora. Daqui a 10 dias vence o aluguel. Não tenho como pagar hoje e não tenho perspectiva de pagá-lo no depois de hoje. Meu sofrimento do depois de hoje é agora. Por isto sofro agora com minha finitude. Desta forma me convém acreditar que sou infinito. Afinal uma série numérica é infinita! Porque eu também não poderia sê-lo? E se for assim vou vier agora minha eternidade: o pós tempo - o pós história. E é provável que o pós tempo exista. Pois se o tempo é, o é em face de do não-tempo. Ou seja, posso aliviar agora meu sofrimento com a vivência do não-tempo. De mais a mais a experiência do divino é em mim que se concreta. Este humano-divino é uma experiência real. Nela esta minha transcendência e minha imanência. E em todos os casos a pergunta inicial não faz qualquer sentido, porque equivale a perguntar - e se Deus existir? Este divino continua sendo uma experiência que se realiza agora, em mim e para mim.

A impressão que ficamos após a leitura de "O Existencialismo é um Humanismo" é de que Sartre, embora afirme em contrário, confere à experiência de liberdade de escolha uma dimensão divina; ele absolutiza a responsabilidade do humano singular, transformando esta escolha em um padrão de transcendência dos seres singulares para os seres "categoria". Sartre repete o tempo todo sobre a inexistência de uma natureza humana, mas impressão que tenho é que ele deixa de considerar as contribuições da antropologia, da psicologia social e da ecologia social. O conceito de Teia da Vida, presente na Teoria de Santiago (Maturana e Varela) nos lembra que a cognição é uma propriedade da vida; que existe um padrão de rede desde as micro-particulas até os conjuntos mais complexos. Um padrão que é anterior ao próprio surgimento dos organismos vivos. Um padrão que está presente na organização da matéria. Este padrão cria uma ética da ecologia profunda, onde a liberdade é a liberdade comprometida, mas a liberdade possível. Não existe outra forma de liberdade. A escolha é a escolha possível e condicionada por este padrão: pode ser a cultura, o inconsciente (Freud e Jung) e visão de classe (Marx). Sartre parece conferir demasiado valor ao cogito (Kant), deixando de considerar dimensões como a intuição nos processos de escolha. A intuição é uma experiência (como tal um fenômeno e uma fato da existência) que nos confere um sentido de certeza. É com base nesta certeza que faço minhas escolhas. Não me parece que haja um grau de liberdade significativo quando o que me movimenta é a certeza, resultante de um insigt.

Conhecer Sartre é conhecer sua motivação íntima: como esta responsabilidade que ele nos conta se constrói na história. Sartre sabia que existem pelo menos dois grandes filtros que balizam nossas escolhas: o inconsciente (Freud) e a visão de classe (Marx). O limite íntimo destas escolhas é que me parece estar em questão. Volto minha lembrança a Carlos Takaoka e a todos como ele que passaram por provações físicas e psicológicas profundas, como os prisioneiros de guerra, como Sartre. De todas as guerras. Nunca soube se o Takaoka era ateu ou não, se era materialista ou idealista. Naturalmente o Takaoka possuía forte influência de usa origem oriental. Falávamos sobre a natureza e sentido de nossas escolhas e do nosso engajamento político. Criticávamos as noções de necessidade (imperativos) histórica, como muito determinista para qualquer forma de liberdade. Então ele me contou o seguinte Koan (trata-se um dito ou ato de um mestre Zen).

- Um jovem monge perguntou ao seu mestre: O que é mais importante: carregar o Buda ou lavar os pratos? Ao que o mestre respondeu: O mais importante é lavar o Buda e carregar os pratos.

O pensamento ocidental é muito marcado por alternativas excludentes e o Takaoka me lembrava que uma ética assentada em escolhas excludentes era estranha para ele. Porque existindo ou não uma divindade a sacralidade dos humanos justificavam uma opção humanista. E este provavelmente foi o maior legado de Sartre. Novamente citando Drummond ele nos lembra em sua poesia nossas escolhas pessoais de uma ordem superior e justa. Mas são nossas escolhas. Ninguém nos obriga a isto. Nenhum determinismo da natureza ou da história, nenhum determinismo transcendental teológico. Afinal não existe nenhuma racionalidade a ser desvendada. Todas elas, incluindo sua falta, resultam de nossas escolhas. Não há o que decifrar. Existem apenas escolhas Mas parecem ser escolhas que dormem e às vezes acordam, no mais fundo de nossa intuição. No primeiro e último verso do poema Nosso Tempo, Drummond brinda-nos com estas palavras:

"Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. 
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. 
as leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.
(...)
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Voo da Coruja de Frederico Drummond

Um livro sobre realidades paralelas
Mani Alvarez*
Um dia, em Campinas, reencontrei inesperadamente um antigo amigo de infância. Eu não sabia que era ele que havia se matriculado no meu curso a distância sobre psicologia Transpessoal e agora vinha para o nosso encontro presencial. E com ele vinha junto parte da minha história, em Sete Lagoas. Foi uma alegria muito grande reencontrá-lo.
Me lembro bem, havia um muro que dividia nossas casas, e por lá transitávamos sempre que queríamos burlar as proibições maternas. Desse muro eu chamava Wanda, sua irmã e minha amiga para compartilhar minha enorme revolta, porque minha mãe não havia me deixado sair para brincar. Tudo que vivíamos era de forma absoluta. Ali, cada uma do seu lado do muro, equilibrando num toco de madeira, nós planejávamos nossa fuga, nossa vingança, nosso sonho de justiça... aquele era o nosso muro das lamentações...
Quando, anos mais tarde, reencontrei o Frederico em Campinas, ele não era mais aquele menino que jogava mamona nas meninas nem zombava de nossa rebeldia feminina. Pelo contrário, trazia em sua bagagem uma rica trajetória pessoal de consciência intelectual e política.
Durante o curso de psicologia Transpessoal pude conhecer um homem adulto, sofrido, profundamente marcado por experiências dolorosas em sua vida. Mas, persistente na sua ânsia por experimentar a ‘magia da jornada humana’.
Penso que, em algum momento de sua vida, surgiu a inquietação para buscar, ‘no cotidiano seus melhores materiais para um novo soneto, e assim nasceu o poeta e o seu Vôo da Coruja. Impossível lê-lo sem se deixar tomar pelo espanto. A mente racional entra em colapso. Quem é quem, afinal? Que tempo/espaço é esse? Na (des)ordem dos fatos a ordem das lembranças. “De que universo estamos falando? Que território é este em que o mistério é a norma?”
Sim, Áries, um personagem onírico, o instruiu para seguir sempre sua intuição. E assim ‘teve início uma jornada, sem mapas, sem destino. Na mala o medo e algumas vezes a esperança’.
E o poeta avança: ‘O medo como doença. O medo como poesia. O medo como regente de inumeráveis matizes das palavras e sons da fala humana. O medo de Deus’.
Ás vezes, um lampejo, e ele fala da ‘felicidade como um composto químico’.  Logo em seguida, um sentimento de ‘falência e incompetência’. Ao se lembrar de antigos companheiros de militância que foram mutilados pela ditadura, e que, ‘se hoje não falam, não é porque lhes subtraíram a língua, não falam porque lhes subtraíram a alma’. Todo seu livro é uma revivência do luto profundo que envolveu sua alma por longos anos.
 Mas o menino Frederico trazia ainda na memória o riso de um tempo em que se acreditava invencível. E é com esse riso travesso que ele vai conduzindo o leitor em suas memórias de militância política, quando vivia a utopia messiânica de igualdade e justiça na Terra, quando aprendeu novas formas de economia solidária e cooperativa, quando mergulhou na magia da realidade xamânica e pôde questionar as crenças limitantes das (ditas) verdades-acadêmicas.
É bem verdade que suas leituras de física quântica o haviam preparado para essa aventura poética de lançar-se para além de tudo e de todos. Mas foi uma coruja que o colocou à prova, desafiando-o a voar para além do espaço e do tempo. E reencontrar a si mesmo com outras vestes. E se ver cara a cara com a morte, e viver todas as nuances do medo. “Decifra-me ou devoro-te’.
E foi assim que Frederico ‘experimentou paz ao descobrir que podia viver sem respostas’. Afinal, se tudo que conhecera em sua vida -- ‘meus medos, minhas inquietações, minhas buscas era tudo uma miragem?’ – não havia mais a que se apegar.
Depois de desconstruir e reconstruir a realidade de mil formas, ele encontra, finalmente, a estrada do Caminho Sagrado, aprende a honrar os valores da Grande Mãe e a compreender que seu corpo/território, suas águas, suas riquezas, não podem jamais serem demarcados, comercializados, explorados.
A coruja é o espírito que rege a filosofia. Sei que, de algum lugar ela o adverte, contudo: sim, há um solo que é sagrado. Isto é real? Ou é produto de minha imaginação?

*Mani Alvarez
doutora em Filosofia da Educação pela Unicamp
e Especialista em picologia Transpessoal

manialvarez44@gmail.com

domingo, 6 de agosto de 2017

No Portal do Templo de Guaicui

(...) Depois que meu avô faleceu sua biblioteca ficou aos cuidados da academia de letras da cidade. Em uma caixa de papelão um segredo estava selado. A caixa foi lacrada com fitas adesivas. Na lateral da caixa um pincel atômico proclamava um decreto: “Reservado.” “Não abra”. A curiosidade sobre o conteúdo da caixa ganhou o contorno de muitas lendas. De lendas e do mistério. Meu pai e meus tios decidiram manter a caixa fora do acervo da biblioteca. Tio George era um solteirão de meia idade. Disseram que ele seria o guardião daquele tesouro. E assim foi. Francisco estava morando em São Paulo quando o tio George ligou. A conversa que se seguiu não podia ser mais insólita. Em um sonho tio George viu quando o vovô apareceu-lhe saindo de um elevador. Ele estava no saguão de um templo em ruínas. Tio George conta que numa parede lateral havia uma porta que dava acesso a um elevador. Ele havia apertado o botão de chamada quando o elevador parou no térreo. Meu avô usava um terno de gala, um fraque que comportava colete e gravata borboleta. Tinha nas mãos a caixa lacrada. Como um ato de grande solenidade entregou-a ao tio George. Tudo em silêncio. Naquele momento, sem nenhuma palavra, nenhum som, George disse ter a certeza que seria eu o novo guardião. Pouco mais de vinte dias e a caixa estava sendo entregue em meu endereço. Tio George teve o cuidado de revesti-la com um novo papel. Queria precaver algum acidente. Júlia entendia que eu devia abrir o volume. Tinha a outorga para conhecer seu conteúdo. Se eu era o destinatário isto devia fazer algum sentido. Fui invadido por um temor ancestral. “A Caixa de Pandora”. As palavras gravadas com o pincel atômico ganharam vida. “Não Abra”. Era uma ordem. Meu avô agora era um leão e sua voz um rugido imperativo. Guardei o volume em meu escritório. No fundo eu esperava que meu pai ou algum tio passasse uma orientação. E como estava a caixa ficou. Viajando nestas lembranças Francisco pouco se deu conta do seu destino. Tinha saído com o sol em direção a Pirapora. Júlia combinara visitar suas amigas de infância. Sem correria cobríamos a distância em pouco mais de três horas. No inverno a temperatura ficava mais suportável. Agora fazia pouco mais de 22 graus. No passado já havíamos pegado temperaturas de 45 graus. Esta é ainda uma região histórica para o rio São Francisco. Suas glórias estão em muitas marcas da cidade. Sua história está em seu passado. Na memória de um leito que padecia do descaso. Que predadores carregamos em nossa alma capaz de tanta destruição? O leito do nosso próprio corpo. Depois do almoço na casa de Helena o sono veio para abrandar nosso cansaço. A noite a conversa correu solta. Logo éramos um grupo, eu e dez mulheres. Todas já tinham passado dos cinquenta anos. Havia muita história naquela varanda. A cerveja gelada e os tira gostos eram desculpas desnecessárias. A generosidade e fraternidade era tamanha que nos bastava como qualquer forma de alimento. Mulheres guerreiras que contavam os desafios do cotidiano com a intensidade de um gladiador. Foi então que ouvi pela primeira vez a história de um templo em ruínas construído no final do século XVII. Ficava a trinta quilômetros dali. Era um feito do bandeirante Fernão Dias. O nome da região, Barra do Guaicui, nas margens do rio das Velhas. Conhecer este local ganhou em mim um sentido quase obsessivo. Ali abrigavam-se respostas para muitas inquietações. Combinamos para o dia seguinte, depois do café. Foi uma noite de tumultos. Primeiro uma insônia que me consumiu até às duas horas da manhã. O sono chegou ruidoso. Imagens sobrepunham-se com a vertigem de um tobogã. Rostos conhecidos e desconhecidos perfilavam sem compor qualquer sentido. Repentinamente ganhavam outras formas ou se decompunham como pastos para os abutres. Eram cinco horas quando decidi levantar, buscando em um banho frio o resgate de minha sanidade. No caminho Helena foi contando detalhes com o esmero de uma professora. Ninguém tem certeza do que é história e o que é lenda. Mas as ruínas da igreja estão bem aqui, com toda sua imponência. Isto todos podemos ver. Helena apontou em direção a uma antiga construção, entranhada nas raízes de uma frondosa árvore. Nosso carro tinha que seguir agora por um estreito caminho. Mas já podíamos ver um extenso trecho do rio das Velhas. Estávamos no centro da barra do Guaicui, no município de Várzea da Palma. Este é um ponto de entroncamento com o rio São Francisco. No século XVII o bandeirante Fernão Dias percorria a região a procura de pedras preciosas. Ele teria mandado construir uma igreja de pedra, que ficou inacabada em decorrência de uma peste que dizimou parte de sua expedição. Pouco tempo depois Fernão Dias morreu de malária. Helena parou um instante para recuperar o fôlego. Paramos nosso carro em um pequeno platô lateral. Seguimos a pé. Era impossível não nos rendermos a este cenário. O rio das Velhas desfraldava-se aos nossos olhos em toda sua exuberância. Naquela região suas águas eram calmas e profundas. O barro coloria toda a superfície. Mais à frente ele desaguaria no São Francisco. Um ato de amor da natureza. Estávamos em solo sagrado. Não porque assim alguém decidiu. Sagrado porque assim experimentávamos esta dimensão em nosso espírito. Caminhamos em silêncio. Um pouco mais e agora se revelava o monumento de pedra. Ruínas de um templo. O acervo natural ainda hoje impressiona. E não é para menos. Histórias e lendas ganharam a dimensão do mistério na versão acalorada dos agentes de turismo. Encontrei Tonho, sentado em um banquinho, enquanto um toco de madeira servia de mesa para suas tarefas. Ele arrumava pequenos mapas e muitos papéis em uma antiga pasta de couro. Prestativo, deitou falação. Foi então que Francisco soube que aquelas ruínas eram da igreja do Bom Jesus de Matosinhos. Agora, há pouco mais de um metro do templo senti como se toda aquela construção me engolisse. Era como se à minha volta todos tivessem desaparecido. Um passe de mágica. Impossível descrever toda emoção. O arrebatamento era verdadeiro. Um intrincado sistema de raízes subia pelas paredes a uma altura superior a três metros. No topo o colosso verde de uma árvore abria-se como guarda sol gigante. Encostei-me na lateral de um dos portais. Sentado em um degrau de pedra deixei-me viajar nas entranhas daquele cenário. Como por encanto eu me via no interior do sonho do tio George. Não era apenas um observador. Nenhuma dúvida obstruía meus movimentos. Solenemente meu avô, em seu traje de gala, fundia-se às raízes da grande árvore desaparecendo no meio de sua seiva. Solenemente tio George me entregava a misteriosa caixa. Enfim seria apresentado ao seu conteúdo. Não sei quanto tempo fiquei mergulhado neste êxtase. Não importa. O desafio de Pandora poderia ser confrontado. Francisco sentiu um leve toque das mãos de Júlia. Um toque que conferia concretude à minha certeza. (...)

Trecho do livro: Pegadas na Trilha de Frederico Ozanam Drummond - Agosto de 2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Voo da Coruja: Uma conspiração pela vida.


Quero fazer um agradecimento público à minha irmã Wanda Drummond, que se dispôs, de forma paciente, a escrever uma das apresentações do meu livro O Voo da Coruja. Wanda é professora universitária aposentada e é especialista em Teoria da Literatura. Agradeço também a Mani Alvarez, vivendo atualmente em Campinas onde dirige o Instituto Clasi. Mani é doutora em Filosofia da Educação pela Unicamp e Especialista em psicologia transpessoal. Agradeço ainda o carinho de Luza, Lucia Drummond Saturnino Dupin , minha esposa, que de forma paciente se dispôs a fazer uma leitura de todo o original do livro, realizando sempre excelentes sugestões. Não posso esquecer meus irmãos Marcilio O. Drummond, Tina Drummond, Leonardo H Drummond, Quin Drummond, Maria Ines Drummond, Ana Lucia, meu cunhado Abel que aceitaram ler os originais, fazendo suas recomendações. Faço um agradecimento particular ao meu irmão João Batista Drummond pelo seu zelo na edição do livro. Deixo um agradecimento póstumo a minha primeira esposa Lenir, hoje habitando a morada do Grande Espírito, pelas suas vivências que inspiraram partes importantes do livro. Muitos outros personagens estiveram presentes em minhas vivências, como mestres zelosos auxiliando-me no meu processo de autogenia, conceito da terminologia proposta pelo criador da filosofia clinica no Brasil, o filósofo Lúcio Packter . Assim agradeço também a filosofa clínica Marta Claus , que realizou comigo a etapa da clínica pedagógica, período da formação em que o terapeuta se submete a todo o método da filosofia clínica. O resultado desta verdadeira conspiração positiva da vida é O Voo da Coruja. Sejam bem vindos a esta grande festa. Vocês vão gostar.

A Magia d'O Voo da Coruja


No topo das ruínas da antiga Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho, na Barra do Guaicuí, às margens do Rio das Velhas, distante apenas 24 km de Pirapora (MG), a Coruja é a Senhora dos dois Reinos. Lá me defrontei com um dos seus portais. O Portal da Torre de Pedra. Este igreja começou a ser construída no século XVII pelo bandeirante Fernão Dias. Um praga dizimou a maior parte dos trabalhadores e moradores locais. Assim a construção foi interrompida. Uma história verdadeira? Não sei. Talvez uma ficção, talvez. Como no jogo do Tarot a Torre pode significar estruturaras do psiquismo que precisam ser desconstruídas. E como no mito da Fênix o renascimento de novas estruturas é sempre um novo ciclo. O próprio mistério da vida. A beleza do seu movimento. (A capa do livro é um foto que tirei deste portal de pedra).

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Olhar crítico sobre O Voo da Coruja


Wanda Drummond (*)

Em “O Voo da Coruja” a busca existencial se une à aventura da linguagem. Hegel explica o fato de a coruja ser o símbolo da Filosofia por alçar voo quando o dia já se foi, como pela capacidade de ver o mundo a partir de vários ângulos, que intui-se por sua visão de 360 graus.
A coruja, enquanto metáfora da narrativa convida o leitor a participar dessa viagem, ou jogo, em que o tempo filosófico transcende a linearidade do tempo narrado, e que escapulindo dessa lógica, obriga o leitor a, distanciando-se do tempo como do espaço do cotidiano, fazer reflexões e/ou estabelecer- se como parceiro /opositor do narrador coruja.
“Gregório já dava sinais de uma ansiedade que crescia. Não, tudo muito estranho. Pô – estou dormindo? Mas tudo é tão vivo”.

(*) Professora universitária aposentada e especialista em Teoria da Literatura.