terça-feira, 29 de dezembro de 2009

RECEITA DE ANO NOVO, POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

LULA: UMA DAS PERSONALIDADES QUE MOLDARAM A DÉCADA, DIZ O FINANCIAL TIMES.

Um dos traços amargos do preconceito é a dificuldade em abordar a realidade não convencional, aquela realidade que não se encontra nos manuais acadêmicos. Esta mesma dificuldade é expressa na grande mídia. E o melhor exemplo deste tipo de ocorrência refere-se ao presidente Lula. É dificil para todos os tipos de conservadores, para a direita ideológica e para alguns meios acadêmicos reconhecer o extraordinário valor de homem que construiu seu saber fora dos sistemas convecionais de ensino. Desta forma a avaliação contrária vem de fora,de um dos principais jornais britânicos, o Financial Times. Veja abaixo um pequeno resusmo:

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi escolhido pelo jornal britânico "Financial Times" como uma das 50 personalidades que moldaram a última década. Segundo o diário, Lula entrou na lista porque "é o líder mais popular da história do Brasil".

"Charme e habilidade política sem dúvida contribuem (para sua popularidade), assim como a baixa inflação e programas de transferência de renda baratos, mas eficientes", diz o jornal.

"Muitos, inclusive o FMI, esperam que o Brasil se torne a quinta maior economia do mundo até 2020, trazendo uma mudança duradoura na ordem mundial."

domingo, 27 de dezembro de 2009

”A Desglobalização Começou".

“A desglobalização já começou”, assegura o sociólogo Richard Sennett (Chicago, 1943). A saída da crise será lenta, e de jeito nenhum voltaremos ao “ancient régime”, à espumosa paisagens das duas últimas décadas, nas quais o sistema estava criando seu próprio colapso porque tinha “abandonado a economia real, que se nutre de trabalhadores qualificados, de artesãos”.

A reportagem é de J. M. Martí Font, publicada no jornal El País, 22-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“El artesano” [O artesão] (Ed. Anagrama) é justamente o título de seu último livro, o primeiro volume de uma trilogia dedicada, segundo suas palavras, à “cultura material”. Para esse discípulo de Hannah Arendt que esteve nesta segunda-feira em Barcelona, “fazer é pensar”, e a palavra artesanato (craftmanship) designa “um impulso humano, duradouro e básico, o desejo de realizar bem uma tarefa, sem mais”.

Isso supõe, explica, dedicação para aprender e para desenvolver as habilidades, para crescer como um trabalhador competente, um conceito que se destacou por sua ausência nestes últimos 20 anos, nos quais não se investiu nos trabalhadores; o que se fazia, ao invés, era comprar o mais barato que havia. O resultado, conclui, é que, quando chegou o colapso, “a economia real não tinha nenhum tipo de resistência para enfrentar a explosão financeira”.

Mas quando fala de artesãos, Sennett não se refere só ao estereótipo do trabalhador altamente qualificado de uma empresa tecnológica, mas sim aos conhecimentos adquiridos, por mais simples ou banais que pareçam, que formam a própria textura da sociedade e da economia. Um dos efeitos do sistema imperante nestas últimas décadas, denuncia, foi “a cegueira” diante das habilidades das pessoas que denominamos como pouco qualificadas, mas de cujas capacidades somos “socialmente dependentes”.

“Se você é cuidador em um hospital ou trabalha na limpeza, sua ficha laboral lhe definirá como não qualificado, mas não está certo. Trata-se de pessoas com muitas habilidades: conhecem o hospital, sabem a quem chamar quando há uma emergência, sabem como conservar o lugar limpo, inclusive detectam se alguém piorou subitamente e chamam o médico ou a enfermeira. Há muitos trabalhadores assim. Parece muito simples, mas isso vai sendo adquirido com tempo e dedicação, e não é valorizado. A visão neoliberal consistia basicamente em que o trabalho era uma série de tarefas sem relação. As qualidades podem ser simples, mas as instituições são complexas. A quem chamar quando alguma coisa quebra? Isso é artesanato. Esquecer isso é esquecer que a vida tem uma narração, que a competência em algo é uma narração, não só para o indivíduo, mas também para a sociedade”.

Homem de esquerda, desencantado com a prática política dos partidos socialistas europeus e concretamente do trabalhismo britânico pelo qual deixou de militar, Sennett considera que em nossas sociedades existe uma profunda desconfiança com relação às classes dirigentes. No trabalho de campo que ele está realizando para o segundo livro dessa trilogia, ele entrevistou trabalhadores de níveis médios da Wall Street em greve. “Os chefes não têm nenhuma autoridade”, descobriu, “são muito ricos, mas aqueles que trabalham para eles na sala de máquinas acreditam que são muito incompetentes, que não sabiam o que estavam fazendo e também não lhes importava, contanto que continuasse entrando dinheiro”.

No entanto, o poder político, incluindo a esquerda, denuncia ele, continua pensando “que tudo continua igual aos anos loucos do boom, e que o mais importante é salvar o setor financeiro, porque é aquele que faz a economia real funcionar. Há uma ironia em tudo isso. Acredito que a esquerda deve se centrar muito mais nas empresas locais, é preciso desglobalizar, focalizar-se nos pequenos negócios. Vamos entrar em um longo período de atividade econômica deprimida, e essa história de que uma vez que os banqueiros recuperem seus bônus a economia se reativará é uma fantasia que é vendida às pessoas”.

UMA FOTO POR MIL PALAVRAS



O trabalho é do fotografo Quim Drummond, meu querido irmão. Trata-se de um dos e-mail que recebí de felicitações, neste período do ano que reiteramos compromissos e revisamos alternativas. Faço uso desta foto como símbolo de felicitações para todos os meus amigos conhecidos e desconhecidos, todos os companheiros de caminhada, a toda a minha família e, em especial à Lenir e aos meus filhos Fabricio e Diego.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Em Copenhague: Autofagia do Capitalismo.

O texto abaixo foi publicado a edição de hoje, do jornal Folha On-line.Independente da perfomance de líder internacional, assumida (e reconhecida mundialmnte) pelo presidente Lula, o que aconteceu em Copenhague compõe o ambiente da autofagia do capitalismo. Neste momento a grande tarefa cabe aos paises que estão mais avançados na construção da Economia Social. Os próximos anos terão que compor um novo patamar de articulaçõs internacionais: o capitalismo não é ético por natureza. Então, por ai, nada a esperar, quando os lucros de curto prazo estão ameçados. O capitalismo não dará solução aos desequílibrios ambientais: este modo de produção faz parte deste desquilíbrio. Todavia, repito, uma mova ordem está sendo construida.

Nenhum dos líderes que subiu ontem ao púlpito do Bella Center, o centro que abrigou a malfadada conferência do clima da ONU, foi tão aplaudido como Luiz Inácio Lula da Silva.

Por cerca de dez minutos, 119 chefes de Estado e de governo, reunidos para tentar salvar um acordo no último minuto, ouviram um Lula tão frustrado quanto eloquente. Falando de improviso, chamou a atenção dos países desenvolvidos por falharem no que poderia ser o acordo do século e lamentou as consequências do fracasso para os países mais vulneráveis.
Lula disse que está frustrado por falta de acordo e oferece ajuda para fundo climático
Quatro longas salvas de palmas pontuaram o momento, que em nada lembrou a morna fala da véspera, quando o brasileiro elencara boas intenções sem surpreender nem cativar.
E, diferentemente da quinta-feira, Lula pôs um trunfo na mesa para tentar destravar o impasse fermentado nos últimos 12 dias: uma oferta de contribuição em dinheiro para um fundo global do clima, como a Folha havia adiantado já na quarta-feira que o Brasil faria.
"Se for necessário fazer um sacrifício a mais, o Brasil está disposto a colocar dinheiro também para ajudar os outros países", disse, sem detalhar. "Estamos dispostos a participar do financiamento se nós nos colocarmos de acordo numa proposta final, aqui."
Mas, após uma reunião com outros líderes que adentrou a madrugada e que continuaria horas depois, o presidente se mostrava sem esperança. "Se a gente não conseguiu fazer até agora esse documento, não sei se algum anjo ou algum sábio descerá neste plenário e colocará na nossa cabeça a inteligência que faltou até agora."

A fala catalisou os ânimos no evento. Minutos depois Barack Obama assumiria o púlpito com um discurso cheio de senões, em que repassou aos chineses a responsabilidade pelo fracasso que, para a maioria das delegações, cabia a ele.

Mediação

A performance de Lula contrastou não só com a do presidente americano, mas com a de sua chefe de delegação, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que sumiu de cena quando o presidente chegou. Desde suas primeiras horas em Copenhague, Lula encarnou o papel de articulador entre ricos e emergentes.

Recebeu em seu hotel Nicolas Sarkozy (França), Angela Merkel (Alemanha) e Gordon Brown (Reino Unido), além do premiê chinês, Wen Jiabao. Os europeus, segundo o Itamaraty, procuraram Lula em busca de mediação com o G-77, dos países em desenvolvimento. Depois, o brasileiro faria a ponte entre Obama e Wen, na busca de uma linguagem adequada para atender aos dois antagonistas no texto final.

Mas os resultados do esforço não satisfizeram o presidente, que saiu do Bella Center, sem falar à imprensa, direto para o aeroporto. As pistas de seu estado de espírito transpiraram da plenária: "Todos poderíamos oferecer um pouco mais se tivéssemos assumido boa vontade nos últimos períodos."

Lula cedeu na questão financeira e, sobretudo, propôs reduções ambiciosas nas emissões de gases-estufa pelo país. Só não recuou no que o Brasil sempre pôs como inegociável: assinar um acordo que desmontasse o Protocolo de Kyoto, único documento legal contra o aquecimento global, que fixa diferenças nas responsabilidades de países desenvolvidos e em desenvolvimento. Ele expira em 2012.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Modelo social-desenvolvimentista, na visão de Pochmann.

Posso até não concordar com todas as teses do Pochmann, mas existem mais pontos de convergências do que de divergência entre nossas posições. No artigo abaixo Pochmann fala de um novo modelo social-desenvolvimentista. Eu tenho defendido a emergência de um modo de produção fundado em um sistema de Rede social e econômica solidário. Dois pontos são fundamentais neste modelo: o papel do Estado democrático, de hegemonia popular e a organização sócio-econômica da produção e distribuição fundada nos princípios do cooperativismo legítimo. Não vejo que minhas teses encontrem-se em qualquer antagonismo com o texto que reproduzimos a seguir.


O esgotamento do projeto desenvolvimentista imposto pela crise da dívida externa no início da década de 1980 não tornou o País órfão de um modelo econômico e social por muito tempo. A partir do fim dos anos oitenta do século passado, o Brasil internalizou gradualmente o modelo neoliberal.

O entendimento de que o Estado faria parte apenas dos problemas existentes levou à formulação de diversas profecias que não foram realizadas com o passar dos anos. Exemplo disso foi o próprio comportamento econômico durante os anos de hegemonia neoliberal. Pelo lado internacional, constatou-se que a opção pela inserção passiva e subordinada gerou grande fragilidade externa. Cada instabilidade externa produzia internamente a interrupção da expansão produtiva e enormes consequências sociais negativas.

Com isso, a variação média anual do Produto Interno Bruto (PIB) foi de apenas 2,3%, favorecendo a financeirização da riqueza como medida de compensação crescente à tendência de baixa na taxa média de lucro do setor produtivo.

Assim, coube ao Estado a submissão plena ao regime de ajustes fiscais permanentes por meio do contingenciamento ao gasto público, da privatização do setor produtivo estatal e da elevação da carga tributária.

A opressão do gasto público se revelou necessária à eficácia da macroeconomia financeira, responsável pela transferência média anual de mais de 6% do PIB na forma de pagamento de juros aos segmentos rentistas. Mas o ajuste fiscal permanente trouxe, em consequência, o desajuste social, uma vez que as regiões metropolitanas mantiveram a taxa de pobreza acima de 2/5 da população, e mais de 1/3 dos brasileiros submetidos à condição de baixa renda.

Ao disciplinar 19% do PIB para o gasto social, a experiência neoliberal comprimiu a expansão real do salário mínimo, bem como manteve menos de 14% da população receptores de medidas de garantia mensal de renda. A desigualdade na renda do trabalho manteve-se próxima de 0,6 no índice de Gini, enquanto a participação do rendimento do trabalho ficou abaixo de 40% da renda nacional.

Nos últimos anos, contudo, o Brasil passou a acusar importantes sinais de transição para o modelo social-desenvolvimentista. A identificação básica de que o Estado faz parte das soluções dos problemas existentes não implicou reproduzir os traços do velho modelo nacional desenvolvimentista vigente entre as décadas de 1930 e 1970. Pelo contrário. De um lado, pela reafirmação da soberania nacional, o que exigiu uma profunda reorientação da inserção internacional, com a passagem da condição brasileira de devedor para a de credor de organismos multilaterais (FMI), a formação de significativas reservas externas e o redirecionamento do comércio externo e cooperação técnica para o âmbito das relações Sul-Sul. Assim, as crises externas deixaram de expor a sociedade brasileira às mesmas dificuldades observadas durante a vigência passada do modelo neoliberal.

De outro lado, os compromissos firmados com o avanço do sistema produtivo permitiram a expansão econômica nacional anual na média de 4,2%, bem como a queda da despesa pública com a financeirização da riqueza para quase 2 pontos percentuais do PIB inferiores aos vigentes durante o predomínio do modelo neoliberal. Com isso, houve tanto a ampliação no gasto social para 22% do PIB (quase 3 pontos percentuais a mais do que nos anos 1990) como o atendimento de mais de 1/3 da população brasileira com mecanismos de garantia mensal de renda.

O resultado social se mostrou evidente, com a queda na taxa de pobreza para menos de 1/3 da população e a desigualdade de renda do trabalho abaixo de 0,40 do índice de Gini nas regiões metropolitanas.

A recente volta da mobilidade social, que inclui no consumo de massa milhões de brasileiros e transforma a antiga figura da pirâmide social numa nova, parecida com uma pera, mostrase fruto do avanço do ainda incompleto socialdesenvolvimentismo.

Os próximos anos, se este modelo for mantido e aprofundado, poderão indicar o quanto pode ser reduzida a distância que separa o país real daquele que os brasileiros acreditam realmente que possa vir a ser.

*Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).


Fonte:http://www.fpabramo.org.br/portal/

sábado, 12 de dezembro de 2009

Percuária: um vilão no efeito estufa, no Brasil.

A metade dos gases responsáveis pelo efeito estufa emitidos no Brasil procede da pecuária, segundo um estudo apresentado neste sábado em Copenhague, à margem da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática.

Ao analisar as emissões totais do Brasil "foi possível observar que o conjunto das emissões procedentes desta atividade (pecuária) corresponde, aproximadamente, à metade das emissões do Brasil", destaca o trabalho, liderado por Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília. Os pesquisadores brasileiros concluíram que das 2,2 gigatoneladas de equivalente do dióxido de carbono (CO2) emitidas oficialmente pelo Brasil em 2005, segundo dados do ministério brasileiro de Ciência e Tecnologia, aproximadamente 1.055 gigatoneladas correspondem à pecuária.

As emissões geradas pela pecuária incluem o desmatamento para a formação de pastos, queimadas para a renovação do capim e a fermentação intestinal bovina, que gera importantes quantidades de metano, um dos gases de maior efeito sobre o aquecimento global, disse Roberto Smeraldi, especialista da associação Amigos da Terra-Amazônia Brasileira.

Admitindo que a pecuária "é parte do problema da mudança climática", Smeraldi destacou que "ela também deve ser considerada como parte da solução" nas negociações em Copenhague sobre um novo acordo internacional para combater o aquecimento global. Smeraldi disse que é preciso fazer a pecuária evoluir, controlando o desmatamento para a formação de pastos, acabando com a impunidade dos crimes climáticos e dando incentivos econômicos aos criadores.

O Brasil possui o maior rebanho bovino do mundo, com mais de 190 milhões de cabeças.As emissões brasileiras de gases do efeito estufa cresceram 62% entre 1990 e 2005, e mais da metade deste aumento corresponde ao manejo da terra.O Brasil decidiu em Copenhague adotar um "compromisso voluntário" de reduzir suas emissões de CO2 entre 36% e 39% sobre a previsão de emissões para 2020, e mais da metade desta redução procederá da queda no desmatamento da selva amazônica. O restante dependerá de ações nos setores agropecuário, industrial, energético e siderúrgico
Fonte:http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/afp/2009/12/12/brasil-apresenta-pesquisa-que-culpa-pecuaria-pelo-efeito-estufa.jhtm