1 - Nem todo dogma é fundamentalista. Mas todo fundamentalismo é sempre dogmático.
2 - A assimetria do poder, que impede o exercício da democracia, não resulta apenas da concentração do capital. Porém, toda forma de burocracia é geradora de poder assimétrico.
3 - A Democracia dita representativa é um engodo. O representado não tem poder de controle sobre o seu representante, podendo apenas destituí-lo ou nomeá-lo pelo voto ou pela força. No cotidiano os representados desconhecem como e o que fazem seus representantes.
4 - A única forma de democracia real é a direta ou participativa. Por uma questão prática, não por princípios, é preciso sempre descobrir formas de aumentar a ação direta do representado sobre seu representante.
5 - Banco Central do Brasil é um exemplo prático de burocracia, que se exercita por meio de um conjunto de normas de difícil domínio dos verdadeiros titulares desta instituição: o POVO. Banco Central independente de um governo popular é um logro. Vai depender apenas do Capital.
6 - O Estado só se democratiza quando se expressa de forma simétrica com a sociedade civil.
7 - A revolução cultural, na China, foi uma tentativa de liquidar o poder da burocracia do Partido Comunista. Criou, porém nova forma de poder assimétrico, através da Guarda Vermelha, amparado em um fundamentalismo armado e no culto à personalidade.
Tecnologia Social, sustentabilidade, economia solidária, cooperativismo, comércio justo, redes de cooperação solidária: o desenvolvimento destes domínios constitui o fundamento da THEIA VIVA.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
A COPA E OS DONOS DO PODER
Quem tem dinheiro compra, quem não tem está fora. Esta é a linguagem do mercado. Esta linguagem não foi inventada nem pelo Lula, nem pela Dilma, muito menos pelo PT. Esta linguagem foi inventada pelos capitalistas.
Antes de você apontar sua metralhadora para a organização da Copa no Brasil é melhor apontá-la para seus patrocinadores: o capital financeiro. A hipocrisia que circula na rede é tão grande que parecem esquecer que a mercantilização do esporte em geral e do futebol em particular começou lá trás, quanto esporte virou mercadoria. O nome disto é reificação e constitui uma das denúncias mais contundentes do critico social Karl Marx. Então se você quiser sabotar a copa é bom entender todo o processo de alienação que alimenta todos os estádios de futebol em todos os cantos do mundo. Vejo que no meio dos que clamam contra a copa estão os torcedores de todos os times nacionais. Quem banca estes times? Quem financia seus estádios? Quem paga salários milionários para jogadores de futebol? Finalmente - quem são os verdadeiros donos do Capital e sistematicamente subtraem recursos da educação e da saúde pública, porque há quase 500 anos só entendem esta prática, a linguagem do mercado. Quem tem dinheiro compra, quem não tem está fora.
EM TEMPO; Disseram-me que no caso da Copa, a construção dos Estádios teve como origem Recursos Públicos e na compra e salário de um jogador o recurso é Privado. ESTA DISTINÇÃO É MAIS UMA FALÁCIA. Vejamos porque:
a) Os recursos públicos tem uma de suas principais origens de receita nos tributos, dinheiro que pertence teoricamente ao coletivo do povo, não podendo assim ser destinado ao uso dos negócios privados. Em tese ele deveria se destinar em sua totalidade àqueles que deram sua origem - novamente o coletivo do povo. incluindo os banqueiros (os donos do Itau, Bradesco etc) como pessoa física e assemelhados (donos - pessoa física da Globo e assemelhados). Um forte pleito da classe média é o investimento pelo Estado em infra-estrutura, como estradas de todos os tipos, portos, barragens etc. Mas é a classe média o principal beneficiária destes investimentos? Claro que não. Quem são então? São aqueles que, em virtude destes investimentos, têm seus cursos reduzidos e seus lucros aumentados. Ou seja os maiores beneficiários dos pleitos da classe média são os donos do Capital. Vale lembrar que QUALQUER QUE SEJA O GOVERNO (Trabalhista, Socialista, Social-democrata, Neoliberal) a prioridade dos investimentos será sempre para os titulares do PODER, ou seja, a classe hegemônica. O PT chegou ao GOVERNO, mas nunca ao PODER. Estas são coisas muito diferentes. Daí da para receber que a briga com a COPA o buraco é mais embaixo. É claro que um PODER é hegemônico, mas não único (ou monolítico). O PODER é disputado por outras forças sociais como os DONOS do TRABALHO (assalariados, agricultores familiares, micro-empresa familiar urbana, empreendedores individuais, cooperativas da Economia Social e a parcela do ESTADO que representa estes poderes. O nome de tudo isto é ECONOMIA PLURAL.
b) Outra questão central é a origem do Capital das empresas, entendido por muitos como de origem privada. E sendo privado, este Capital poderia ele comprar e gastar o que quisesse em estágios e salários de jogadores. Mas não é assim que funciona.
O Capital das empresas tem em geral duas origens principais: o valor de venda das mercadorias (a margem adicionada a um produto) e o valor da mais-valia. A Mais-Valia é a diferença que o trabalhador agrega com seu trabalho ao produto (a) e o valor do seu salário (b). A massa do valor agregado do trabalho é sempre maior do que a massa do valor de todos os salários pagos. Em uma cooperativa legítima esta diferença a mais do valor agregado pelo trabalho é distribuída entre todos os sócio-trabalhadores. Em uma empresa convencional esta diferença é apropriada pelo empresário. Então alguém argumenta a mais-valia é remuneração do empresários pelo seus riscos no investimento (capital, tecnologia e equipamentos). Bobagem - capital, tecnologia e equipamentos são o que chamamos de "trabalho congelado" ou como diz Marx " trabalho morto". Isto significa que em algum momento da cadeia este dinheiro deixou de ser entregue aos que o geraram, o seja os donos do trabalho. Se queremos falar em algum tipo de Capitalismo Social o lucro das empresas precisaria ser reinvestido integralmente (deduzido a depreciação dos equipamentos e novos investimentos em tecnologia) em benefícios sociais. O empresários teria seu salário como todos os trabalhadores, como acontece em uma cooperativa. Para que não pensem que não tenho referencial empírico aqui vai: TODA A REGIÃO DO QUEBEC no Canadá funciona assim.
Isto é um modelo real de não exploração do trabalho e de não alienação. Considerado estes considerandos poderemos então falar dos gastos com a COPA e todos os outros gatos privados e públicos no Brasil. Data vênia (eita Supremo) os que pensam em contrário são estas minhas considerações.
Antes de você apontar sua metralhadora para a organização da Copa no Brasil é melhor apontá-la para seus patrocinadores: o capital financeiro. A hipocrisia que circula na rede é tão grande que parecem esquecer que a mercantilização do esporte em geral e do futebol em particular começou lá trás, quanto esporte virou mercadoria. O nome disto é reificação e constitui uma das denúncias mais contundentes do critico social Karl Marx. Então se você quiser sabotar a copa é bom entender todo o processo de alienação que alimenta todos os estádios de futebol em todos os cantos do mundo. Vejo que no meio dos que clamam contra a copa estão os torcedores de todos os times nacionais. Quem banca estes times? Quem financia seus estádios? Quem paga salários milionários para jogadores de futebol? Finalmente - quem são os verdadeiros donos do Capital e sistematicamente subtraem recursos da educação e da saúde pública, porque há quase 500 anos só entendem esta prática, a linguagem do mercado. Quem tem dinheiro compra, quem não tem está fora.
EM TEMPO; Disseram-me que no caso da Copa, a construção dos Estádios teve como origem Recursos Públicos e na compra e salário de um jogador o recurso é Privado. ESTA DISTINÇÃO É MAIS UMA FALÁCIA. Vejamos porque:
a) Os recursos públicos tem uma de suas principais origens de receita nos tributos, dinheiro que pertence teoricamente ao coletivo do povo, não podendo assim ser destinado ao uso dos negócios privados. Em tese ele deveria se destinar em sua totalidade àqueles que deram sua origem - novamente o coletivo do povo. incluindo os banqueiros (os donos do Itau, Bradesco etc) como pessoa física e assemelhados (donos - pessoa física da Globo e assemelhados). Um forte pleito da classe média é o investimento pelo Estado em infra-estrutura, como estradas de todos os tipos, portos, barragens etc. Mas é a classe média o principal beneficiária destes investimentos? Claro que não. Quem são então? São aqueles que, em virtude destes investimentos, têm seus cursos reduzidos e seus lucros aumentados. Ou seja os maiores beneficiários dos pleitos da classe média são os donos do Capital. Vale lembrar que QUALQUER QUE SEJA O GOVERNO (Trabalhista, Socialista, Social-democrata, Neoliberal) a prioridade dos investimentos será sempre para os titulares do PODER, ou seja, a classe hegemônica. O PT chegou ao GOVERNO, mas nunca ao PODER. Estas são coisas muito diferentes. Daí da para receber que a briga com a COPA o buraco é mais embaixo. É claro que um PODER é hegemônico, mas não único (ou monolítico). O PODER é disputado por outras forças sociais como os DONOS do TRABALHO (assalariados, agricultores familiares, micro-empresa familiar urbana, empreendedores individuais, cooperativas da Economia Social e a parcela do ESTADO que representa estes poderes. O nome de tudo isto é ECONOMIA PLURAL.
b) Outra questão central é a origem do Capital das empresas, entendido por muitos como de origem privada. E sendo privado, este Capital poderia ele comprar e gastar o que quisesse em estágios e salários de jogadores. Mas não é assim que funciona.
O Capital das empresas tem em geral duas origens principais: o valor de venda das mercadorias (a margem adicionada a um produto) e o valor da mais-valia. A Mais-Valia é a diferença que o trabalhador agrega com seu trabalho ao produto (a) e o valor do seu salário (b). A massa do valor agregado do trabalho é sempre maior do que a massa do valor de todos os salários pagos. Em uma cooperativa legítima esta diferença a mais do valor agregado pelo trabalho é distribuída entre todos os sócio-trabalhadores. Em uma empresa convencional esta diferença é apropriada pelo empresário. Então alguém argumenta a mais-valia é remuneração do empresários pelo seus riscos no investimento (capital, tecnologia e equipamentos). Bobagem - capital, tecnologia e equipamentos são o que chamamos de "trabalho congelado" ou como diz Marx " trabalho morto". Isto significa que em algum momento da cadeia este dinheiro deixou de ser entregue aos que o geraram, o seja os donos do trabalho. Se queremos falar em algum tipo de Capitalismo Social o lucro das empresas precisaria ser reinvestido integralmente (deduzido a depreciação dos equipamentos e novos investimentos em tecnologia) em benefícios sociais. O empresários teria seu salário como todos os trabalhadores, como acontece em uma cooperativa. Para que não pensem que não tenho referencial empírico aqui vai: TODA A REGIÃO DO QUEBEC no Canadá funciona assim.
Isto é um modelo real de não exploração do trabalho e de não alienação. Considerado estes considerandos poderemos então falar dos gastos com a COPA e todos os outros gatos privados e públicos no Brasil. Data vênia (eita Supremo) os que pensam em contrário são estas minhas considerações.
domingo, 30 de março de 2014
A VIOLÊNCIA DOS Seguranças da casa de shows WOOD'S BAR
"Seguranças da casa de shows WOOD'S BAR, em Belo Horizonte, BATERAM, FERIRAM E HUMILHARAM MINHA FILHA, UMA MOÇA DE 20 ANOS, ESTUDANTE DE DIREITO, na noite de 29 de março de 2014."
A moça em questão não é minha filha, é minha prima. Mas é filha de pessoas muito querida para mim. A humilhação e truculência que ela sofreu dos seguranças do Wood's Bar, em Belo Horizonte, coloca questões graves para nossa reflexão.
A minha prima - moça de 20 anos, estudante de direito - fez Boletim de Ocorrência na delegacia. E ai? O que vai acontecer? Os pais da minha prima tentaram de toda forma um contato telefônico com a direção desta casa de shows, em vão.
E neste cenário resta além de nossa profunda indignação fica também dezenas de pergunta: PORQUE A VIOLÊNCIA EM PARTICULAR CONTRA A MULHER FICA DESTA FORMA IMPUNE? NÓS cidadãos comuns que armas da cidadania temos para assegurar nossa integridade. Claro que vamos recorrer a um advogada e a casa vai ser devidamente processada. Claro que continuaremos cobrando da polícia investigação sobre o ocorrido. Mas a nossa dor, de pais humilhados, de filhos violentados vai para onde? Não cederemos um milímetro do nosso direito, de nossa obrigação de proteger nossos filhos. Esta lição conhecemos muito bem. E ela é tão bem lembrada no poema de Eduardo Alves da Costa:
No caminho com Maiakóvsk
"Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada."
Não iremos admitir este vaticínio. Já aprendemos o suficiente para entender que a justiça nasce do seu exercício. E é o que faremos.
Frederico Ozanam Drummond - professor de filosofia.
Compartilhem esta denúncia em nossas redes sociais. Este é o espaço do nosso exercício de democracia.
A moça em questão não é minha filha, é minha prima. Mas é filha de pessoas muito querida para mim. A humilhação e truculência que ela sofreu dos seguranças do Wood's Bar, em Belo Horizonte, coloca questões graves para nossa reflexão.
A minha prima - moça de 20 anos, estudante de direito - fez Boletim de Ocorrência na delegacia. E ai? O que vai acontecer? Os pais da minha prima tentaram de toda forma um contato telefônico com a direção desta casa de shows, em vão.
E neste cenário resta além de nossa profunda indignação fica também dezenas de pergunta: PORQUE A VIOLÊNCIA EM PARTICULAR CONTRA A MULHER FICA DESTA FORMA IMPUNE? NÓS cidadãos comuns que armas da cidadania temos para assegurar nossa integridade. Claro que vamos recorrer a um advogada e a casa vai ser devidamente processada. Claro que continuaremos cobrando da polícia investigação sobre o ocorrido. Mas a nossa dor, de pais humilhados, de filhos violentados vai para onde? Não cederemos um milímetro do nosso direito, de nossa obrigação de proteger nossos filhos. Esta lição conhecemos muito bem. E ela é tão bem lembrada no poema de Eduardo Alves da Costa:
No caminho com Maiakóvsk
"Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada."
Não iremos admitir este vaticínio. Já aprendemos o suficiente para entender que a justiça nasce do seu exercício. E é o que faremos.
Frederico Ozanam Drummond - professor de filosofia.
Compartilhem esta denúncia em nossas redes sociais. Este é o espaço do nosso exercício de democracia.
sábado, 29 de março de 2014
Quem ganha e quem perde com as CPIs - Luis Nassif
Oposição e grupos de mídia querem fazer Dilma sangrar e, no limite, apelar ao impeachment
por Luis Nassif — publicado 28/03/2014 11:29
O primeiro passo é rasgar a fantasia. A CPI proposta, para apurar o caso Pasadena, tem duas ameaças objetivas e um propósito subjacente.
As ameaças:
- Deixar Dilma Rousseff sangrando durante as eleições.
- No limite, batalhar por um impeachment.
- Deixar Dilma Rousseff sangrando durante as eleições.
- No limite, batalhar por um impeachment.
O propósito: barganhar.
O governo Dilma conseguiu juntar um conjunto de fatores desfavoráveis – mas que, dependendo do ângulo que se olhe, podem ser vistos como positivos.
Barganhou pouco com o Congresso e com os grupos de mídia, mesmo pecado de Fernando Collor.
Apesar da visão desenvolvimentista, do esforço e dos mimos às federações empresariais, não é vista como um deles. Também não é vista como representativa dos movimentos sociais e sindicais.
Por outro lado, mantém imagem de seriedade, terá o que mostrar na campanha eleitoral – daí a pressa da oposição. E tem o trunfo de ser conhecida por todos. Portanto, é garantia de previsibilidade – ainda que de uma previsibilidade desanimada –, ao contrário dessa maluquice de abrir a caixa de Pandora de uma CPI.
Também tem a seu favor todos os grupos que não acreditam no potencial dos candidatos da oposição. Além, obviamente, da imensa massa de seguidores de Lula.
A aventura da CPI é um coquetel fantástico que, quase sempre, mistura conspiradores, oposicionistas, políticos negocistas, meios de comunicação com interesses variados, de políticos a comerciais – em suma, a elite do subdesenvolvimento político-empresarial brasileiro. Vale para todos os tempos, inclusive para os tempos de PT oposição.
Assim como na crise de Vargas em 1954, como em 1964, na campanha do impeachment de Collor, papel central é ocupado pelos grupos de mídia e por sua capacidade de insuflar a opinião pública. Cabe a eles criar o clima, soltando matérias em cima de matérias, fundamentadas ou mesmo sem fundamento visando gerar a catarse.
Por aqui, uma notícia falsa – a de que Dilma fora conivente com a cláusula put (absolutamente usual em contratos dessa natureza) – alimentou por quatro dias o denuncismo da imprensa. Mas ainda houve pausas e fôlego para esclarecer a informação.
Em uma CPI, será literalmente impossível. Serão uma denúncia e dez factoides por semana. Daí essa atração perigosa por CPIs.
Na campanha do impeachment de Collor, durante dias falou-se que ele movimentava milhões em sua conta pessoal, sacando e aplicando diariamente. E era apenas uma conta comum dos bancos, de reaplicação diária do saldo, o chamado overnight.
Criado o clima irracional, abre-se a caixa de Pandora e os desdobramentos posteriores serão imprevisíveis, com a possibilidade de aparecerem novos protagonistas não previstos inicialmente – como o grupo militar da Sorbonne em 1964.
Por aí se entendem dois movimentos prévios da mídia, procurando afastar dois atores potenciais:
- As críticas surpreendentes da Globo à intervenção militar de 1964 – inclusive através do Jornal Nacional.
- A operação desmonte Joaquim Barbosa. Como todo movimento que junta interesses variados, há a necessidade de um avalista moral. O candidato natural seria Joaquim Barbosa. Por imprevisível e incontrolável, foi descartado. Agora, tratam de trazer a cena a imagem simbólica de El Cid, o Campeador, esse Varão de Plutarco de nome Fernando Henrique Cardoso.
- A operação desmonte Joaquim Barbosa. Como todo movimento que junta interesses variados, há a necessidade de um avalista moral. O candidato natural seria Joaquim Barbosa. Por imprevisível e incontrolável, foi descartado. Agora, tratam de trazer a cena a imagem simbólica de El Cid, o Campeador, esse Varão de Plutarco de nome Fernando Henrique Cardoso.
Quem ganha com a CPI
Imagine-se que a Operação CPI seja bem sucedida.
Todos os atores envolvidos terão ganhos expressivos:
1. Grupos de mídia.
Voltarão a ter a imensa influência que obtiveram pós-impeachment e certamente acesso a facilidades para essa dura travessia para o mundo de competição da era digital.
2. Aécio e Eduardo Campos
Já se apresentaram como os novos líderes da oposição e já ensaiaram pactos que assegurariam uma governabilidade, caso a crise se agrave.
3. Senadores e parlamentares em geral
A CPI não sendo bem sucedida, todas as emendas parlamentares – que os grupos de mídia vivem apregoando como o veneno da democracia – serão liberadas, graças a essa parceria grupos de mídia-baixo clero. Sendo bem sucedida, estarão bem situados na próxima orquestração política.
O que não se combinou com os russos
É evidente que trata-se de uma aposta de alto risco, na qual os grupos podem sair vitoriosos... ou derrotados.
Então, se houver bons estrategistas de seu lado, terão que ponderar os seguintes fatores fora de controle:
- Em 1964 havia um partido rachado, o PTB, sem uma liderança única, e com baixa ascendência sobre os novos incluídos. Agora, tem-se um partido orgânico, o PT, sob a liderança de um político, Lula, com fôlego para levantar o país.
- Se fosse em 2010, ter-se-ia um STF majoritariamente partidarizado e um Procurador Geral da República engrossando o coro. Agora, não, há um STF legalista.
- Em 1964 havia o tenentismo ainda uma voz influente nas Forças Armadas, organizando a reação e sendo fortalecido pela quebra de hierarquia militar. Agora, não mais, embora as comissões da verdade incomodem.
- Em 1964, tinha-se a guerra fria e o fantasma presente de golpe dos dois lados - ainda que para um dos lados fosse apenas uma miragem.
- Tinha-se também uma situação econômica difícil, com inflação e estagnação econômica. Agora tem-se uma economia andando de lado, mas com os menores índices de desemprego da história. E, em que pesem os erros cometidos, muito longe do caos econômico de 64.
- Finalmente, teve o Comício da Central e a assembleia dos marinheiros, liberando forças incontroláveis. Agora, há cuidados.
Mais ainda. Uma radicalização do quadro político agravará sensivelmente o quadro econômico, produzirá uma guerra política sem quartel.
Quem quer bancar?
Quem perde com a CPI
Não sendo bem sucedida a operação, como ficarão os grupos?
1. Grupos de mídia
Será a derradeira cartada. Cada demonstração excessiva de poder provoca desgastes consideráveis e aumenta os anticorpos daqueles que denunciam a cartelização da mídia. Os impactos sobre a economia terão efeitos pesados sobre a publicidade e sobre a situação financeira já combalida de muitos grupos.
2. Aécio e Campos
Abrem mão da imagem de bom mocismo e apostarão firmemente na radicalização. Se derrotados, são varridos do mapa político; vitoriosos, se tornarão reféns dos grupos de mídia e da radicalização política brasileira.
3. Senadores e parlamentares em geral
Os espertos saberão como barganhar e pular para o barco mais sólido. Mas arcarão com o desgaste pelas turbulências econômicas que vierem a provocar.
As saídas óbvias
Há dois tipos de impaciência alimentando a crise.
A da oposição é conhecida: a perspectiva de não apenas perder as eleições para a presidência da República mas para dois estados chaves, São Paulo e Rio.
Mas o combustível maior é de outra natureza.
Há tempos as pesquisas vinham apontando que o eleitor quer mudanças com Dilma Rousseff.
Quando a presidente não acena com nenhum sinal de mudança, persiste em uma teimosia férrea, não acata nenhuma crítica, nem as fundamentadas, alimenta a marola que, persistindo a teimosia, transforma-se em inundação.
domingo, 23 de março de 2014
UMA JORNADA PELA NOSSA DEMOCRACIA
No começo da década de 90, no bojo de uma grande reflexão intelectual que tomou expressão em críticos e pensadores como Fritjof Capara, Ken Wilber, Karl Pribram, Renée Weber, Pierre Weil, Roberto Crema, tendo ainda como inspiração a fenomenologia de Teilhad de Chardin, o teólogo Leonardo Boff apontou o caminho da democracia ecológica.
“ Há uma exigência política de uma educação ecológica, para que todos os seres humanos aprendam a conviver com todos os seres, animados e inanimados, como cidadãos de uma mesma sociedade. É a democracia ecológica-social-cósmica.(Boff, Leonardo 1993- p.91)
Dentro destas reflexões, ou em profunda parceria com a holo-ecologia surge o que vem sendo chamado de Economia Solidária ou Economia Social, na vertente de pensamento e práticas desenvolvida pelo professor Paul Singer (Singer, Paul -2000 – p.11). Segundo o professor Singer a economia solidária, entendida como um modo de produção, possui feição revolucionária e emancipadora, ao buscar sistemas de organização da economia em empresas autogestionárias e cooperativas, como uma prática de superação do capitalismo O “locus” da ética desta ação é agora, potencializada pela as empresas de tratamentos de resíduos e reciclagem, em um momento de grande crise mundial originária no esgotamento do recursos naturais, na base da exploração do modo capitalista de ser e viver o espaço coletivo.
As saídas individualistas como nos propõem o mercado, caíram no desespero do niilismo ou criaram espaço para uma fuga ao passado, como âncora de verdades eternas. O planeta terra está com seus dias contados. Isto não é nenhuma praga divina. É o resultado do nosso medo de romper o processo de destruição da vida. De encarar o desafio ecológico não como modismo, mas dentro de um horizonte ético, de entender esta ligação profunda de todos os habitantes (vivos e não vivos) do berço natal de nossa espécie.
Leonardo Boff nos fala de uma práxis cristã que consiga superar o burocratismo da hierarquia de poder da Igreja Católica ou de qualquer outra Igreja, que se estabeleça numa relação de poder com seus fiéis.
Este é um exemplo para uma autocrítica do PT. Ou melhor, da militância do PT. Uma militância que se resgate como legítimo sujeito da história e apenas por sua ação viva um partido político e uma estrutura do Estado se legitima. Quando falamos desta nova perspectiva estamos tratando de buscar a superação da democracia representativa pela democracia participativa. Os movimentos sociais e ação local constituem a base desta nova práxis. Mas não só. É preciso clarear o horizonte de uma democracia ecológica, como passamos a expor a seguir. Estas reflexões já ganharam corpo dentro do próprio PT, mas tiveram sua grande força na nova organização social, potencializado pelo Fórum Mundial Social.
Assim o primeiro desafio que nos defrontamos com a presente tarefa é a identificação de um fio condutor, que permita reconhecer a natureza das diversas contribuições, compartilhadas nos diversos fóruns políticos, que se inicia com uma visão dos seres humanos, ao longo da história. Se trabalharmos com esta visão, precisamos antes de tudo relembrar o significado de cultura, como um sistema de símbolos, normas, preceitos, cujo significado só existe para os humanos. E o sentido do sagrado, que do ponto de vista de uma construção científica tem sua melhor expressão na busca da transcendência, conceituada como metamotivação, na versão mais abalizada de Maslow.
Os humanos são antes de tudo singulares por dois fatores fundamentais: a) representam a possibilidade do universo se observar, sabendo que se sabe; b) é um ser que cria o próprio universo e constrói utopias.
Eu gostaria de enfatizar este dois pontos, referidos acima e retomá-los trazendo um pouco da reflexão de um pensador, cientista e teólogo, que já mencionamos no nascedouro da Ação Popular (AP), o padre Pierre Telhard de Chardin, que construiu uma fascinante obra sobre a trajetória da consciência, até esta alcançar o estágio humano e continuar como “filum” evoluindo na direção da mais-consciência (ou noosfera). Os dois pontos que eu havia citado sobre os humanos: a) representam a possibilidade do universo se observar, sabendo que se sabe; b) é um ser que cria o próprio universo e constrói utopias. Chardin – pesquisador e pensador brilhante disse:“No mais fundo de si mesmo o mundo vivo é constituído por consciência revestida de carne e osso. Da Biosfera à Espécie, tudo é, pois, simplesmente imensa ramificação de psiquismo que se busca através das formas.” (O Fenômeno Humano – trad. Leon Bourdon e José Terra, Herder, S. Paulo, 1965)
Os humanos, como ponto avançado da evolução, são coadjuvante de uma aventura, que prossegue, na formação da “Teia da Vida”(Capra).
Mas este filum que nos fala Chardin possui uma história e muitas culturas e um dos grandes desafios da antropologia é retirar os muitos véus que encobrem nossa visão, fazendo com que nosso olhar selecione apenas uma parte desta diversidade como a humanidade se mostra. Ao longo da história temos sido prisioneiros de um etnocentrismo, que nos impede de reconhecer a muitas faces de nossa trajetória.
Por que só conseguimos enxergar a humanidade como história do ocidente (e a história oficial do ocidente)? Creio que ao longo de nossa vivência adquirimos alguns vícios, que a antropologia clama para que nos libertemos dele. Mesmo no ocidente pouco ou nada conseguimos enxergar das chamadas populações aborígines (chamados índios). No Brasil, quando o país foi ocupado por Europeus tínhamos uma população superior a 1 milhão de habitantes, com seus hábitos, suas teogonias, suas crenças, etc. Se incluirmos todas as Américas este número deve quadruplicar. Excluímos os humanos e civilizações andinas, da região do México e de toda a América do Norte. Do Oriente, então nem falar: como era visto os humanos da China, produtores de uma grande cultura, da Índia e de toda a África. Nossa visão da humanidade é fortemente européia. Assim como nossa visão da Teologia. Mesmo hoje quando falamos de globalização, como esta experiência impacta na África, por exemplo?E de diversos outros povos que se mantiveram sobre o julgo do colonialismo europeu? Qual a face desta parte da humanidade? O que provavelmente há de comum entre estes humanos é a sua condição de opressão.
Mas qual o ser que ocultamos na opressão? Qual a sua face?
Segundo o pedagogo Paulo Freire o lado mais cruel da opressão é precisamente o estágio que opressor opera um massacre psicológico e cultural no oprimido, destruindo sua auto-estima e levando-o a compartilhar (aceitar) valores que não são seus. Esta é a grande alienação que nos falava Marx: em todas as épocas da história, o servo, o escravo, o trabalhador assalariado interioriza de tal forma a dominação que perde sua capacidade de reagir e passa a aceitar a opressão como vontade de Deus, ou subjugado pelo que eu chamo de uma depressão sócio-cultural que mina a força do excluído. E nós, os produtores da opressão, fomos extremamente competentes: eliminamos a capacidade do excluído se emancipar e o acusamos de mendicância. Eliminamos toda sua auto-estima e ficamos indignados quando este excluído prefere ficar dormindo sobre viadutos do que morar em um albergue. Minamos a fé do sertanejo - por séculos seguidos de dominação, fazendo-o crer que seu sofrimento lhe abrirá as portas do Céu e depois não entendemos sua resistência a ações modernizadoras de irrigação, construção de açudes e outros. O sertanejo violentado em sua alma e convencido da vontade de Deus pelo seu sofrimento, reage como coisa do “demo”, a ações de modernização.(lembremos que Lampião no cangaço era monarquista, em plena era republicana).Violentamos por séculos seguidos os negros escravos (estamos há pouco mais de cem anos da abolição da escravatura), convencendo-o da inferioridade de sua cultura. Porém estranhamos quando este reproduz padrões de consumo da sociedade branca.(para buscar sua inclusão desenvolve métodos de branqueamento) Incutimos no escravo a idéia que existe um processo natural de civilização, em que a condição tribal é inferior à condição societária, sem atentarmos que trata-se tão somente de organizações sociais diferentes. E pretendemos acreditar que uma dita civilização que construiu todos os instrumentos de destruição em massa seja chamada de civilização superior.
Mas como tratar esta brutalizarão da cultura e do espaço sagrado dos de grande parcela da humanidade, no espaço desta disciplina?
Considero sempre fundamental não esquecermos que o presente debate ocorre no espaço que lida com a cultura do sagrado, ou com a dimensão do sagrado no âmbito de nosso ser cultural. Lembrar isto permite circunscrever o campo de debate.
A primeira refere-se à proposição do debate, que permite a seguinte releitura: a sociedade capitalista promove a desvalorização do humano no ser humano, o que significa o próprio processo de alienação e reificação. Na sociedade capitalista os humanos são mais um dos muitos insumos. Seu trabalho é mercadoria, negociado como outras mercadorias, assim como os recursos naturais. A produção da mais valia se dá pelo sobre-trabalho e sua apropriação é uma expropriação: o dono do capital se apossa de algo que não lhe pertence. E assim se processa o início de uma história de exploração, degradação e exclusão do humano da sua condição fundamental de humano. Podemos promover nossa emancipação de tais relações, eliminando de nossa cultura, de nossa psiquê, de nossa história a herança perversa de um sistema que se afirma pelo supremo valor do Capital? Não é tarefa fácil, nem simples. Os caminhos não são muitos, mas existem. No espaço da Teologia da Libertação, da construção de modos de produção alternativo (economia solidária), na afirmação da ecologia profunda vislumbramos alguns caminhos.
O mais recente livro de Fritjof Capra, A Teia da Vida, retoma a visão de interligação ecológica de todos os eventos que ocorrem na Terra e da qual fazemos parte, de forma fundamental. Em muitos pontos, este pode ser o livro mais profundo dos já escritos por Capra. Ele nos apresenta seu conceito de Ecologia Profunda neste livro, um termo que, para ele, é mais apropriado que o termo holístico, já bastante gasto por pessoas que se apropriaram erroneamente deste termo para comercializá-lo. Nada melhor, então, do que lermos o próprio Capra O novo paradigma que emerge atualmente pode ser descrito de várias maneiras. Pode-se chamá-lo de uma visão de mundo holística, que enfatiza mais o todo que as suas partes. Mas negligenciar as partes em favor do todo também é uma visão reducionista e, por isso mesmo, limitada. Pode-se também chamá-lo de visão de mundo ecológica, e este é o termo que eu prefiro. Uso aqui a expressão ecologia num sentido muito mais amplo e profundo do que aquele em que é usualmente empregado. A consciência ecológica, nesse sentido profundo, reconhecer a interdependência fundamental de todos os fenômenos e o perfeito entrosamento dos indivíduos e das sociedades nos processos cíclicos da natureza. Essa percepção profundamente ecológica está agora emergindo em várias áreas de nossa sociedade, tanto dentro como fora da ciência. O paradigma ecológico é alicerçado pela ciência moderna, mas se acha enraizada numa percepção existencial que vai além do arcabouço científico, no rumo de sua consciência de íntima e sutil unidade de toda a vida e da interdependência de suas múltiplas manifestações e de seus ciclos de mudança e transformação. Em última análise, essa profunda consciência ecológica é espiritual. Quando o conceito de espírito humano é entendido como o modo de consciência em que o indivíduo se sente ligado ao cosmo como um todo, fica claro que a percepção ecológica é espiritual e política em sua essência mais profunda, e então não é surpreendente o fato de que a nova visão da realidade esteja em harmonia com as concepções das tradições espirituais da humanidade.
Vale aqui recordar experiências recentes, considerando como se processa em cada um de nós o que se convencionou chamar na emergência do paradigma holístico. Não iremos teorizar sobre isto, apenas fazer alguns registros de nossas experiências. A maioria de nós vive de alguma forma as angústias de nossas fragmentações internas. Não conseguirmos nos perceber como unidade. Basta um simples exercício para constatarmos isto. Se alguém nos pede para apontarmos algo da natureza logo nos apressamos a apontar uma arvore, o céu ou qualquer elemento exterior. Dificilmente apontamos para nós mesmos. Ou seja, não nos percebemos como a própria natureza. Isto é conhecido como Fantasia da separatividade. Esta ilusão, pôr si mesmo fragmentadora, gera outra mais grave ainda: a Fantasia da separação entre o nosso próprio corpo, nossas emoções e o nosso espírito. Isto é tão evidente que criamos uma ciência para o corpo e uma ciência para o espírito. Psicologia e biologia caminham separadas como tratassem de assuntos distintos. A medicina fragmenta-se nas múltiplas especializações, tratando de doenças, perdendo cada vez mais o sentido da unidade do ser. Conheci este enfoque com o Professor Pierre Weil, um mestre da abordagem holística:“ Quebramos a unidade do conhecimento e distribuímos os pedaços entre os especialistas. Para os cientistas , demos a natureza; aos filósofos, a mente; aos artistas, o belo; aos teólogos, a alma. Não satisfeitos, fragmentamos a própria ciência, espalhando-a pelos domínios da matemática, da física, da química, da biologia, da medicina e de tantas outras disciplinas. O mesmo ocorreu com a filosofia, a arte e a religião, cada um desses ramos se subdividindo ao infinito. Como conseqüência, o mundo do saber tornou-se uma verdadeira ‘Torre de Babel’, onde os especialistas falam cada qual a sua língua e ninguém se entende. A mais ameaçadora de todas as fragmentações, no entanto, foi a que dividiu os homens em corpo, emoção, razão e intuição, porque ela nos impede de raciocinar com o coração e de sentir com o cérebro.(...)”( in A Arte de Viver em Paz ).
As recentes preocupações com a ecologia mostraram-nos o quanto estamos próximo de uma liquidação do nosso planeta. O estágio que alcançou o capitalismo, reforçando o conceito de exploração literalmente de tudo, lembra-nos a lição da própria dialética: a reação à todo tipo de exploração é a nova síntese que se constrói mundialmente. Existe uma pedagogia para esta reação: a ecologia não é algo exterior nem aos indivíduos, nem às suas organizações e à sociedade.
Assim se constrói a busca de um diagnóstico para o que chamaremos de
a) Ecologia interior;
b) Ecologia social e
c) Ecologia ambiental.
O valor que permeia este diagnóstico é a compaixão e ação a solidariedade. O espaço da ação é o nosso espaço; o locus do nosso cotidiano. Onde moramos, onde aprendemos e principalmente, como ensinamos e como aprendemos. Ninguém pode se dá ao luxo do pessimismo e se ausentar desta tarefa. A pedagogia da Ecologia Interior ou Pessoal envolve desde as práticas religiosas, como exercícios de equilíbrio do tipo da yoga, restauração de práticas de revitalização da família, dos amigos e todos os laços afetivos. Na Ecologia Social o grande desafio é a construção da Economia e da Vida Solidária e todo modelo educacional voltado para este desenvolvimento e ações políticas, através de grupos de pressão, sindicatos, partidos políticos, etc. Na Ecologia Ambiental a ação pode volta-se para o estudo da biodiversidade, das tecnologias genéticas e no âmbito mais cotidiano para pressões que busquem estancar o consumo do planeta Terra. As ações de reciclagem, a pesquisa da biomassa como fonte de energia, a pressão pelo uso do transporte não predador, são apenas alguns exemplos de ações a serem desenvolvidas. O Partido dos Trabalhadores em qualquer processo de refundação terá que se defrontar com tais desafios e ser capaz de incorporar as novas demandas, que formulada no FMS pode sintetizar o espaço de uma nova esperança: um outro mundo é possível.
“ Há uma exigência política de uma educação ecológica, para que todos os seres humanos aprendam a conviver com todos os seres, animados e inanimados, como cidadãos de uma mesma sociedade. É a democracia ecológica-social-cósmica.(Boff, Leonardo 1993- p.91)
Dentro destas reflexões, ou em profunda parceria com a holo-ecologia surge o que vem sendo chamado de Economia Solidária ou Economia Social, na vertente de pensamento e práticas desenvolvida pelo professor Paul Singer (Singer, Paul -2000 – p.11). Segundo o professor Singer a economia solidária, entendida como um modo de produção, possui feição revolucionária e emancipadora, ao buscar sistemas de organização da economia em empresas autogestionárias e cooperativas, como uma prática de superação do capitalismo O “locus” da ética desta ação é agora, potencializada pela as empresas de tratamentos de resíduos e reciclagem, em um momento de grande crise mundial originária no esgotamento do recursos naturais, na base da exploração do modo capitalista de ser e viver o espaço coletivo.
As saídas individualistas como nos propõem o mercado, caíram no desespero do niilismo ou criaram espaço para uma fuga ao passado, como âncora de verdades eternas. O planeta terra está com seus dias contados. Isto não é nenhuma praga divina. É o resultado do nosso medo de romper o processo de destruição da vida. De encarar o desafio ecológico não como modismo, mas dentro de um horizonte ético, de entender esta ligação profunda de todos os habitantes (vivos e não vivos) do berço natal de nossa espécie.
Leonardo Boff nos fala de uma práxis cristã que consiga superar o burocratismo da hierarquia de poder da Igreja Católica ou de qualquer outra Igreja, que se estabeleça numa relação de poder com seus fiéis.
Este é um exemplo para uma autocrítica do PT. Ou melhor, da militância do PT. Uma militância que se resgate como legítimo sujeito da história e apenas por sua ação viva um partido político e uma estrutura do Estado se legitima. Quando falamos desta nova perspectiva estamos tratando de buscar a superação da democracia representativa pela democracia participativa. Os movimentos sociais e ação local constituem a base desta nova práxis. Mas não só. É preciso clarear o horizonte de uma democracia ecológica, como passamos a expor a seguir. Estas reflexões já ganharam corpo dentro do próprio PT, mas tiveram sua grande força na nova organização social, potencializado pelo Fórum Mundial Social.
Assim o primeiro desafio que nos defrontamos com a presente tarefa é a identificação de um fio condutor, que permita reconhecer a natureza das diversas contribuições, compartilhadas nos diversos fóruns políticos, que se inicia com uma visão dos seres humanos, ao longo da história. Se trabalharmos com esta visão, precisamos antes de tudo relembrar o significado de cultura, como um sistema de símbolos, normas, preceitos, cujo significado só existe para os humanos. E o sentido do sagrado, que do ponto de vista de uma construção científica tem sua melhor expressão na busca da transcendência, conceituada como metamotivação, na versão mais abalizada de Maslow.
Os humanos são antes de tudo singulares por dois fatores fundamentais: a) representam a possibilidade do universo se observar, sabendo que se sabe; b) é um ser que cria o próprio universo e constrói utopias.
Eu gostaria de enfatizar este dois pontos, referidos acima e retomá-los trazendo um pouco da reflexão de um pensador, cientista e teólogo, que já mencionamos no nascedouro da Ação Popular (AP), o padre Pierre Telhard de Chardin, que construiu uma fascinante obra sobre a trajetória da consciência, até esta alcançar o estágio humano e continuar como “filum” evoluindo na direção da mais-consciência (ou noosfera). Os dois pontos que eu havia citado sobre os humanos: a) representam a possibilidade do universo se observar, sabendo que se sabe; b) é um ser que cria o próprio universo e constrói utopias. Chardin – pesquisador e pensador brilhante disse:“No mais fundo de si mesmo o mundo vivo é constituído por consciência revestida de carne e osso. Da Biosfera à Espécie, tudo é, pois, simplesmente imensa ramificação de psiquismo que se busca através das formas.” (O Fenômeno Humano – trad. Leon Bourdon e José Terra, Herder, S. Paulo, 1965)
Os humanos, como ponto avançado da evolução, são coadjuvante de uma aventura, que prossegue, na formação da “Teia da Vida”(Capra).
Mas este filum que nos fala Chardin possui uma história e muitas culturas e um dos grandes desafios da antropologia é retirar os muitos véus que encobrem nossa visão, fazendo com que nosso olhar selecione apenas uma parte desta diversidade como a humanidade se mostra. Ao longo da história temos sido prisioneiros de um etnocentrismo, que nos impede de reconhecer a muitas faces de nossa trajetória.
Por que só conseguimos enxergar a humanidade como história do ocidente (e a história oficial do ocidente)? Creio que ao longo de nossa vivência adquirimos alguns vícios, que a antropologia clama para que nos libertemos dele. Mesmo no ocidente pouco ou nada conseguimos enxergar das chamadas populações aborígines (chamados índios). No Brasil, quando o país foi ocupado por Europeus tínhamos uma população superior a 1 milhão de habitantes, com seus hábitos, suas teogonias, suas crenças, etc. Se incluirmos todas as Américas este número deve quadruplicar. Excluímos os humanos e civilizações andinas, da região do México e de toda a América do Norte. Do Oriente, então nem falar: como era visto os humanos da China, produtores de uma grande cultura, da Índia e de toda a África. Nossa visão da humanidade é fortemente européia. Assim como nossa visão da Teologia. Mesmo hoje quando falamos de globalização, como esta experiência impacta na África, por exemplo?E de diversos outros povos que se mantiveram sobre o julgo do colonialismo europeu? Qual a face desta parte da humanidade? O que provavelmente há de comum entre estes humanos é a sua condição de opressão.
Mas qual o ser que ocultamos na opressão? Qual a sua face?
Segundo o pedagogo Paulo Freire o lado mais cruel da opressão é precisamente o estágio que opressor opera um massacre psicológico e cultural no oprimido, destruindo sua auto-estima e levando-o a compartilhar (aceitar) valores que não são seus. Esta é a grande alienação que nos falava Marx: em todas as épocas da história, o servo, o escravo, o trabalhador assalariado interioriza de tal forma a dominação que perde sua capacidade de reagir e passa a aceitar a opressão como vontade de Deus, ou subjugado pelo que eu chamo de uma depressão sócio-cultural que mina a força do excluído. E nós, os produtores da opressão, fomos extremamente competentes: eliminamos a capacidade do excluído se emancipar e o acusamos de mendicância. Eliminamos toda sua auto-estima e ficamos indignados quando este excluído prefere ficar dormindo sobre viadutos do que morar em um albergue. Minamos a fé do sertanejo - por séculos seguidos de dominação, fazendo-o crer que seu sofrimento lhe abrirá as portas do Céu e depois não entendemos sua resistência a ações modernizadoras de irrigação, construção de açudes e outros. O sertanejo violentado em sua alma e convencido da vontade de Deus pelo seu sofrimento, reage como coisa do “demo”, a ações de modernização.(lembremos que Lampião no cangaço era monarquista, em plena era republicana).Violentamos por séculos seguidos os negros escravos (estamos há pouco mais de cem anos da abolição da escravatura), convencendo-o da inferioridade de sua cultura. Porém estranhamos quando este reproduz padrões de consumo da sociedade branca.(para buscar sua inclusão desenvolve métodos de branqueamento) Incutimos no escravo a idéia que existe um processo natural de civilização, em que a condição tribal é inferior à condição societária, sem atentarmos que trata-se tão somente de organizações sociais diferentes. E pretendemos acreditar que uma dita civilização que construiu todos os instrumentos de destruição em massa seja chamada de civilização superior.
Mas como tratar esta brutalizarão da cultura e do espaço sagrado dos de grande parcela da humanidade, no espaço desta disciplina?
Considero sempre fundamental não esquecermos que o presente debate ocorre no espaço que lida com a cultura do sagrado, ou com a dimensão do sagrado no âmbito de nosso ser cultural. Lembrar isto permite circunscrever o campo de debate.
A primeira refere-se à proposição do debate, que permite a seguinte releitura: a sociedade capitalista promove a desvalorização do humano no ser humano, o que significa o próprio processo de alienação e reificação. Na sociedade capitalista os humanos são mais um dos muitos insumos. Seu trabalho é mercadoria, negociado como outras mercadorias, assim como os recursos naturais. A produção da mais valia se dá pelo sobre-trabalho e sua apropriação é uma expropriação: o dono do capital se apossa de algo que não lhe pertence. E assim se processa o início de uma história de exploração, degradação e exclusão do humano da sua condição fundamental de humano. Podemos promover nossa emancipação de tais relações, eliminando de nossa cultura, de nossa psiquê, de nossa história a herança perversa de um sistema que se afirma pelo supremo valor do Capital? Não é tarefa fácil, nem simples. Os caminhos não são muitos, mas existem. No espaço da Teologia da Libertação, da construção de modos de produção alternativo (economia solidária), na afirmação da ecologia profunda vislumbramos alguns caminhos.
O mais recente livro de Fritjof Capra, A Teia da Vida, retoma a visão de interligação ecológica de todos os eventos que ocorrem na Terra e da qual fazemos parte, de forma fundamental. Em muitos pontos, este pode ser o livro mais profundo dos já escritos por Capra. Ele nos apresenta seu conceito de Ecologia Profunda neste livro, um termo que, para ele, é mais apropriado que o termo holístico, já bastante gasto por pessoas que se apropriaram erroneamente deste termo para comercializá-lo. Nada melhor, então, do que lermos o próprio Capra O novo paradigma que emerge atualmente pode ser descrito de várias maneiras. Pode-se chamá-lo de uma visão de mundo holística, que enfatiza mais o todo que as suas partes. Mas negligenciar as partes em favor do todo também é uma visão reducionista e, por isso mesmo, limitada. Pode-se também chamá-lo de visão de mundo ecológica, e este é o termo que eu prefiro. Uso aqui a expressão ecologia num sentido muito mais amplo e profundo do que aquele em que é usualmente empregado. A consciência ecológica, nesse sentido profundo, reconhecer a interdependência fundamental de todos os fenômenos e o perfeito entrosamento dos indivíduos e das sociedades nos processos cíclicos da natureza. Essa percepção profundamente ecológica está agora emergindo em várias áreas de nossa sociedade, tanto dentro como fora da ciência. O paradigma ecológico é alicerçado pela ciência moderna, mas se acha enraizada numa percepção existencial que vai além do arcabouço científico, no rumo de sua consciência de íntima e sutil unidade de toda a vida e da interdependência de suas múltiplas manifestações e de seus ciclos de mudança e transformação. Em última análise, essa profunda consciência ecológica é espiritual. Quando o conceito de espírito humano é entendido como o modo de consciência em que o indivíduo se sente ligado ao cosmo como um todo, fica claro que a percepção ecológica é espiritual e política em sua essência mais profunda, e então não é surpreendente o fato de que a nova visão da realidade esteja em harmonia com as concepções das tradições espirituais da humanidade.
Vale aqui recordar experiências recentes, considerando como se processa em cada um de nós o que se convencionou chamar na emergência do paradigma holístico. Não iremos teorizar sobre isto, apenas fazer alguns registros de nossas experiências. A maioria de nós vive de alguma forma as angústias de nossas fragmentações internas. Não conseguirmos nos perceber como unidade. Basta um simples exercício para constatarmos isto. Se alguém nos pede para apontarmos algo da natureza logo nos apressamos a apontar uma arvore, o céu ou qualquer elemento exterior. Dificilmente apontamos para nós mesmos. Ou seja, não nos percebemos como a própria natureza. Isto é conhecido como Fantasia da separatividade. Esta ilusão, pôr si mesmo fragmentadora, gera outra mais grave ainda: a Fantasia da separação entre o nosso próprio corpo, nossas emoções e o nosso espírito. Isto é tão evidente que criamos uma ciência para o corpo e uma ciência para o espírito. Psicologia e biologia caminham separadas como tratassem de assuntos distintos. A medicina fragmenta-se nas múltiplas especializações, tratando de doenças, perdendo cada vez mais o sentido da unidade do ser. Conheci este enfoque com o Professor Pierre Weil, um mestre da abordagem holística:“ Quebramos a unidade do conhecimento e distribuímos os pedaços entre os especialistas. Para os cientistas , demos a natureza; aos filósofos, a mente; aos artistas, o belo; aos teólogos, a alma. Não satisfeitos, fragmentamos a própria ciência, espalhando-a pelos domínios da matemática, da física, da química, da biologia, da medicina e de tantas outras disciplinas. O mesmo ocorreu com a filosofia, a arte e a religião, cada um desses ramos se subdividindo ao infinito. Como conseqüência, o mundo do saber tornou-se uma verdadeira ‘Torre de Babel’, onde os especialistas falam cada qual a sua língua e ninguém se entende. A mais ameaçadora de todas as fragmentações, no entanto, foi a que dividiu os homens em corpo, emoção, razão e intuição, porque ela nos impede de raciocinar com o coração e de sentir com o cérebro.(...)”( in A Arte de Viver em Paz ).
As recentes preocupações com a ecologia mostraram-nos o quanto estamos próximo de uma liquidação do nosso planeta. O estágio que alcançou o capitalismo, reforçando o conceito de exploração literalmente de tudo, lembra-nos a lição da própria dialética: a reação à todo tipo de exploração é a nova síntese que se constrói mundialmente. Existe uma pedagogia para esta reação: a ecologia não é algo exterior nem aos indivíduos, nem às suas organizações e à sociedade.
Assim se constrói a busca de um diagnóstico para o que chamaremos de
a) Ecologia interior;
b) Ecologia social e
c) Ecologia ambiental.
O valor que permeia este diagnóstico é a compaixão e ação a solidariedade. O espaço da ação é o nosso espaço; o locus do nosso cotidiano. Onde moramos, onde aprendemos e principalmente, como ensinamos e como aprendemos. Ninguém pode se dá ao luxo do pessimismo e se ausentar desta tarefa. A pedagogia da Ecologia Interior ou Pessoal envolve desde as práticas religiosas, como exercícios de equilíbrio do tipo da yoga, restauração de práticas de revitalização da família, dos amigos e todos os laços afetivos. Na Ecologia Social o grande desafio é a construção da Economia e da Vida Solidária e todo modelo educacional voltado para este desenvolvimento e ações políticas, através de grupos de pressão, sindicatos, partidos políticos, etc. Na Ecologia Ambiental a ação pode volta-se para o estudo da biodiversidade, das tecnologias genéticas e no âmbito mais cotidiano para pressões que busquem estancar o consumo do planeta Terra. As ações de reciclagem, a pesquisa da biomassa como fonte de energia, a pressão pelo uso do transporte não predador, são apenas alguns exemplos de ações a serem desenvolvidas. O Partido dos Trabalhadores em qualquer processo de refundação terá que se defrontar com tais desafios e ser capaz de incorporar as novas demandas, que formulada no FMS pode sintetizar o espaço de uma nova esperança: um outro mundo é possível.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Ação Penal 470: uma exceção para a história
por Wanderley Guilherme dos Santos
Ao bem afamado Péricles, o ateniense, é atribuída a opinião de que, embora sendo certo que nem todos têm sabedoria para governar, a capacidade de julgar um governo em particular é universal. A observação parece valer com razoável generalidade. Por exemplo: nem por faltar um diploma em medicina está um adoentado impedido de avaliar a competência do profissional que o assiste. Assim, ainda que não portadaor de títulos ou conhecimentos para ocupar assento no Supremo Tribunal Federal, tenho como direito constitucional e recomendação de um clássico grego inteira liberdade para opinar sobre a Ação Penal 470.
Posso dispensar a cautela de não me indispor com aquele colegiado, pois não tenho licença para advogar oficialmente ou não a causa de quem quer que seja. E contrariando desde logo o juízo de algumas pessoas de bem, não enxergo qualquer efeito pedagógico nesse julgamento e não desejo em hipótese alguma que se repita em outros processos. Falacioso em seu início, enredou os ministros em pencas de distingos argumentativos e notória fabricação de aleijados fundamentos jurídicos. Não menciono escandalosos equívocos de análise com que a vaidade de alguns e a impunidade de todos sacramentaram, pelo silêncio, o falso transformado em verdadeiro por conluio majoritário. Vou ao que me parece essencial.
A premissa maior da denúncia postulava a existência de um plano para a perpetuação no poder arquitetado por três ou quatro importantes personagens do Partido dos Trabalhadores. Até aí nada, pois é aspiração absolutamente legítima de qualquer partido em uma ordem democrática. Não obstante, é também mais do que conhecido que o realismo político recomenda, antes de tudo, a busca da vitória na próxima eleição. Não existe a possibilidade logicamente legítima de extrair de uma competição singular, exceto por confissão dos envolvidos, a meta de perpetuação no poder de forma ilegal ou criminosa. Pois o procurador-geral da República pressupôs que havia um plano transcendente à próxima eleição, a ser executado mediante meios ilícitos.
A normal aspiração de continuidade foi denunciada como criminosa, denúncia a ser comprovada no decorrer do julgamento. E aí ocorreu essencial subversão na ordem das provas. Ao contrário de cada conjunto parcial de evidências apontar para a solidez da premissa era esta que atribuía a frágeis indícios e bisbilhotices levianas uma contundência e cristalinidade que não possuíam. Todos os ministros engoliram a pílula da premissa e passaram a discutir, às vezes pateticamente, a extensão de seus efeitos. Dizer que a mídia reacionária ajudou a criar a confusão, que, sim, o fez, não isenta nenhum dos ministros da facilidade com que caíram na armadilha arquitetada pelo procurador geral e pelo ministro relator Joaquim Barbosa.
Era patético, repito, o espetáculo em que cada ministro procurava nos textos legais quer a inocência, quer a culpabilidade dos acusados. Em momentos, fatos que eram apresentados por um ministro como tendo certa significação, derivada da premissa, e por isso condenava o acusado pelo crime supostamente cometido, os mesmos fatos eram apresentados como significando o oposto e, todavia, servindo de comprovação da culpabilidade do acusado. Exemplo: a ministra Carmem Lucia entendeu que o fato de a mulher de João Paulo Cunha ter ido descontar ou receber um cheque em gerência bancária no centro de Brasília comprovava a tranqüilidade com que os acusados cumpriam atos criminosos à luz do dia, desafiadoramente. Já a ministra Rosa Weber interpretou o mesmo fato como uma tentativa de esconder uma ação ilegal e, portanto, João Paulo Cunha, seu marido, era culpado. Uma ação perfeitamente legal, note-se, o desconto de um cheque, sofreu dupla operação plástica: uma transformou-o em deboche à opinião pública, outra o encapotou como um pioneiro ato blackbloc. Dessas interpretações contraditórias, seguiu-se a mesma conclusão condenatória, pela intermediação da premissa maior, segundo a qual qualquer ato dos indiciados estava associado àquele desígnio criminoso.
Estando os acusados condenados conforme tal rito subversivo, o julgamento de outras acusações (sendo o julgamento “fatiado” como bem arquitetou o relator Joaquim Barbosa, enfiando-o aos gritos pela goela de nove dos 11 ministros) se iniciava assim: tendo ficado provado que o réu cometeu tal e tal crime, lá se ia nova acusação como se se tratasse de um reincidente no mundo do crime em momentos diferentes no tempo. E mais, como se a condenação já estabelecida houvesse confirmado a veracidade da premissa maior sobre a existência de um plano político maligno. Pois assim foi até o fim: a premissa caucionando indícios frágeis – e até mesmo a total ausência de indícios como na fala da ministra Rosa Weber explicando que aceitava a culpabilidade de José Dirceu justamente pela inexistência de provas – e os indícios frágeis, convertidos em condenações, emprestando solidez a uma estapafúrdia premissa.
Foi igualmente lamentável o espetáculo da dosimetria. Como calcular penas segundo a extensão e intensidade do agravo, se a existência do agravo pendia de farrapos de indícios? E como calcular se o que sustentava os indícios era uma conjetura dialeticamente tornada plausível por esses farrapos e para a qual não há pena explícita consignada?
Todos os ilícitos comprovados, e vários o foram, se esclarecem e adquirem sentido terreno quando se aceita o crime confesso de criação e utilização de caixa dois.
Esta outra acusação foi desvirtuada pela mídia e pelos ressentidos de derrotas eleitorais, apresentando-a como tentativa de inocentar militantes políticos.
Notoriamente, buscou-se punir de qualquer modo os principais nomes do Partido dos Trabalhadores. A seguir, sucederam-se os contorcionismos para a montagem de um roteiro em que se busca provar o inexistente.
Não há nada a copiar neste julgamento de exceção – a Ação Penal 470.
Ao bem afamado Péricles, o ateniense, é atribuída a opinião de que, embora sendo certo que nem todos têm sabedoria para governar, a capacidade de julgar um governo em particular é universal. A observação parece valer com razoável generalidade. Por exemplo: nem por faltar um diploma em medicina está um adoentado impedido de avaliar a competência do profissional que o assiste. Assim, ainda que não portadaor de títulos ou conhecimentos para ocupar assento no Supremo Tribunal Federal, tenho como direito constitucional e recomendação de um clássico grego inteira liberdade para opinar sobre a Ação Penal 470.
Posso dispensar a cautela de não me indispor com aquele colegiado, pois não tenho licença para advogar oficialmente ou não a causa de quem quer que seja. E contrariando desde logo o juízo de algumas pessoas de bem, não enxergo qualquer efeito pedagógico nesse julgamento e não desejo em hipótese alguma que se repita em outros processos. Falacioso em seu início, enredou os ministros em pencas de distingos argumentativos e notória fabricação de aleijados fundamentos jurídicos. Não menciono escandalosos equívocos de análise com que a vaidade de alguns e a impunidade de todos sacramentaram, pelo silêncio, o falso transformado em verdadeiro por conluio majoritário. Vou ao que me parece essencial.
A premissa maior da denúncia postulava a existência de um plano para a perpetuação no poder arquitetado por três ou quatro importantes personagens do Partido dos Trabalhadores. Até aí nada, pois é aspiração absolutamente legítima de qualquer partido em uma ordem democrática. Não obstante, é também mais do que conhecido que o realismo político recomenda, antes de tudo, a busca da vitória na próxima eleição. Não existe a possibilidade logicamente legítima de extrair de uma competição singular, exceto por confissão dos envolvidos, a meta de perpetuação no poder de forma ilegal ou criminosa. Pois o procurador-geral da República pressupôs que havia um plano transcendente à próxima eleição, a ser executado mediante meios ilícitos.
A normal aspiração de continuidade foi denunciada como criminosa, denúncia a ser comprovada no decorrer do julgamento. E aí ocorreu essencial subversão na ordem das provas. Ao contrário de cada conjunto parcial de evidências apontar para a solidez da premissa era esta que atribuía a frágeis indícios e bisbilhotices levianas uma contundência e cristalinidade que não possuíam. Todos os ministros engoliram a pílula da premissa e passaram a discutir, às vezes pateticamente, a extensão de seus efeitos. Dizer que a mídia reacionária ajudou a criar a confusão, que, sim, o fez, não isenta nenhum dos ministros da facilidade com que caíram na armadilha arquitetada pelo procurador geral e pelo ministro relator Joaquim Barbosa.
Era patético, repito, o espetáculo em que cada ministro procurava nos textos legais quer a inocência, quer a culpabilidade dos acusados. Em momentos, fatos que eram apresentados por um ministro como tendo certa significação, derivada da premissa, e por isso condenava o acusado pelo crime supostamente cometido, os mesmos fatos eram apresentados como significando o oposto e, todavia, servindo de comprovação da culpabilidade do acusado. Exemplo: a ministra Carmem Lucia entendeu que o fato de a mulher de João Paulo Cunha ter ido descontar ou receber um cheque em gerência bancária no centro de Brasília comprovava a tranqüilidade com que os acusados cumpriam atos criminosos à luz do dia, desafiadoramente. Já a ministra Rosa Weber interpretou o mesmo fato como uma tentativa de esconder uma ação ilegal e, portanto, João Paulo Cunha, seu marido, era culpado. Uma ação perfeitamente legal, note-se, o desconto de um cheque, sofreu dupla operação plástica: uma transformou-o em deboche à opinião pública, outra o encapotou como um pioneiro ato blackbloc. Dessas interpretações contraditórias, seguiu-se a mesma conclusão condenatória, pela intermediação da premissa maior, segundo a qual qualquer ato dos indiciados estava associado àquele desígnio criminoso.
Estando os acusados condenados conforme tal rito subversivo, o julgamento de outras acusações (sendo o julgamento “fatiado” como bem arquitetou o relator Joaquim Barbosa, enfiando-o aos gritos pela goela de nove dos 11 ministros) se iniciava assim: tendo ficado provado que o réu cometeu tal e tal crime, lá se ia nova acusação como se se tratasse de um reincidente no mundo do crime em momentos diferentes no tempo. E mais, como se a condenação já estabelecida houvesse confirmado a veracidade da premissa maior sobre a existência de um plano político maligno. Pois assim foi até o fim: a premissa caucionando indícios frágeis – e até mesmo a total ausência de indícios como na fala da ministra Rosa Weber explicando que aceitava a culpabilidade de José Dirceu justamente pela inexistência de provas – e os indícios frágeis, convertidos em condenações, emprestando solidez a uma estapafúrdia premissa.
Foi igualmente lamentável o espetáculo da dosimetria. Como calcular penas segundo a extensão e intensidade do agravo, se a existência do agravo pendia de farrapos de indícios? E como calcular se o que sustentava os indícios era uma conjetura dialeticamente tornada plausível por esses farrapos e para a qual não há pena explícita consignada?
Todos os ilícitos comprovados, e vários o foram, se esclarecem e adquirem sentido terreno quando se aceita o crime confesso de criação e utilização de caixa dois.
Esta outra acusação foi desvirtuada pela mídia e pelos ressentidos de derrotas eleitorais, apresentando-a como tentativa de inocentar militantes políticos.
Notoriamente, buscou-se punir de qualquer modo os principais nomes do Partido dos Trabalhadores. A seguir, sucederam-se os contorcionismos para a montagem de um roteiro em que se busca provar o inexistente.
Não há nada a copiar neste julgamento de exceção – a Ação Penal 470.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Preto, pobre, prostituta e petista - DO Blog da Cidadania
Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”
Vai Passar (Chico Buarque)
O Brasil amanheceu pior do que ontem. A partir de agora, torna-se oficial o que, até então, era uma tenebrosa possibilidade: cidadãos brasileiros estão sendo privados de suas liberdades individuais apenas pelas ideologias político-partidárias que acalentam.
A “pátria mãe tão distraída” foi “subtraída em tenebrosas transações” entre grupos políticos partidários e de comunicação e juízes politiqueiros.
Na foto que ilustra este texto, o leitor pode conferir o único patrimônio de um político que foi condenado pelos crimes de “corrupção ativa e formação de quadrilha” pelo Supremo Tribunal Federal em 9 de outubro de 2012.
Junto com ele, outros políticos ou militantes políticos filiados ao Partido dos Trabalhadores, todos com evoluções patrimoniais modestas diante dos cargos que ocupavam na política.
José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha e Henrique Pizzolato tiveram suas prisões decretadas com base em condenações por uma Corte na qual, ao longo de sua existência secular, jamais políticos de tal importância foram condenados.
A condenação desses quatro homens, todos de relevância político-partidária, poderia até ser comemorada. Finalmente, políticos começariam a responder por seus atos. Afinal, até aqui o STF sempre foi visto como a principal rota de fuga dos políticos corruptos.
Infelizmente, a única condenação a pena de prisão que aquela Corte promulgou contra um grupo político foi construída em cima de uma farsa gigantesca, denunciada até por adversários políticos dos condenados, como, por exemplo, o jurista Ives Gandra Martins, que, apesar de suas divergências com o PT, reconheceu que não houve provas para condenar José Dirceu, ou como o formulador da teoria usada para condenar os réus do mensalão, o alemão Claus Roxin, que condenou o uso que o STF fez de sua revisão da teoria do Domínio do Fato.
Dirceu e Genoino foram condenados por “formação de quadrilha” e “corrupção ativa” apesar de o primeiro ter estado infinitamente mais distante dos fatos que geraram o “escândalo do mensalão” do que estão Geraldo Alckmin e José Serra dos escândalos Alston e Siemens, por exemplo.
Acusaram e condenaram Dirceu apesar de, à época dos fatos do mensalão, estar distante do Partido dos Trabalhadores, por então integrar o governo Lula. Foi condenado simplesmente porque “teria que saber” dos fatos delituosos por sua importância no PT.
Por que Dirceu “tinha que saber” das irregularidades enquanto que Alckmin e Serra não são nem citados pelo Ministério Público, pela Justiça e pela mídia como tendo responsabilidade direta sobre os governos nos quais os escândalos supracitados ocorreram?
O caso Genoino é mais grave. Sua vida absolutamente espartana, seu microscópico patrimônio, sua trajetória ilibada, nada disso pesou ao ser julgado e condenado como um “corruptor” que teria usado milhões de reais para “comprar” parlamentares.
O caso João Paulo Cunha é igualmente ridículo, em termos de sua condenação. Sua mulher foi ao banco sacar, em nome próprio, com seu próprio CPF, repasse do partido dele para pagar por uma pesquisa eleitoral. 50 mil reais o condenaram por “corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro”.
O caso mais doloroso de todos, porém, talvez seja o de Henrique Pizzolato, funcionário do Banco do Brasil, filiado ao PT e que, por ter assinado um documento que dezenas de servidores da mesma instituição também assinaram sem que contra eles pesasse qualquer consequência, foi condenado, também, por “corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro”.
Isso está acontecendo em um país em que se sabe que dois governadores do PSDB de São Paulo, apesar de ter ocorrido em suas administrações uma roubalheira de BILHÕES DE REAIS, não são considerados responsáveis por nada.
Isso está acontecendo em um país em que um político como Paulo Maluf, cujas provas de corrupção se avolumam há décadas, jamais foi condenado à prisão.
Isso está acontecendo em um país em que um governador como Marconi Perillo, do PSDB, envolveu-se até o pescoço com um criminoso do porte de Carlinhos Cachoeira, foi gravado em relações promíscuas com esse criminoso e nem acusado foi pelo Ministério Público.
Isso está acontecendo, finalmente, no mesmo país em que os ex-prefeitos José Serra e Gilberto Kassab toleraram durante anos roubalheira dentro da prefeitura e quando essa roubalheira de MEIO BILHÃO de reais vem à tona, a mídia e o Ministério Público acusam quem mesmo? O PT, claro.
Já entrou para o imaginário popular, portanto, que, neste país, cadeia é só para pretos, pobres, prostitutas e, a partir de agora, petistas.
No Brasil, as pessoas são condenadas com dureza pela “justiça” se tiverem mais melanina na pele, parcos recursos econômicos, se venderem o que só pertence a si (o próprio corpo) para sobreviver ou se tiveram convicções políticas que a elite brasileira não aceita.
A condenação de alguém a perder a liberdade por suas convicções políticas, porém, é mais grave. É característica das ditaduras, pois a desigualdade da Justiça com os outros três pês deriva de falta de recursos para se defender, não de retaliação a um ideário.
Agora, pois, é oficial: você vive em um país em que se deve ter medo de professar e exercer suas verdadeiras convicções políticas, pois sabe-se que elas expõem a retaliações ditatoriais como as que levarão para cadeia homens cuja culpa jamais foi provada.
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Abaixo, charge do cartunista Vitor feita especialmente para este post
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